domingo, 23 de dezembro de 2012

23 de dezembro de 2012

Entristece-me a crise. Entristece-me esta crise que entristece as pessoas. A crise que são várias crises. A crise que começou no dinheiro e agora já é do trabalho, da família: das pessoas.
Entristecem-me os trocos contados, os olhos sem brilho, as barrigas dilatadas pela fome. Entristecem-me os risos roubados e o andar arrastado. Entristecem-me os cartões espalhados pela Avenida, os cobertores amontoados e o olhar de quem está só ali, só à espera do fim. Entristecem-me as mãos estendidas de quem nunca nada pediu na vida e os princípios que se alteram pelo desespero.
Entristecem-me as malas feitas a que a crise obrigou e o olhar de quem vai - e de quem fica. Criam-se os filhos, veem-se nascer os netos e vive-se no vazio por eles deixado. Não se pertence a lado algum e todos os sítios são vazios de mais. Arrastam-se os dias num vazio cada vez maior, cada vez mais pesado e procura-se acreditar que o que se faz é o melhor, é pelo melhor. Reencontram-se as pessoas em abraços longos e apertados e procura-se esticar os braços ao impossível para que lá ao longe se sinta que não há espaço vazio. Partilham-se sorrisos à distância. Vivem-se vitórias à distância. Colapsam-se relações pela distância.
Entristece-me esta crise que entristece a vida das pessoas. Entristece-me esta crise que entristece as pessoas.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

17 de dezembro de 2012

Medo. Tudo o que sentes é medo. Medo do que pode ser, do que possa ser, do que receias que venha a ser. Medo pelo que foi.
Avanças com medo, mas avanças com a certeza de que terás o melhor. Já viveste o suficiente para saber que a vida dá muitas voltas. Já viveste o suficiente para as dares em grande quantidade. Surpreendes-te a cada uma como se fosse a primeira, mas surpreendes-te de sorriso no rosto e um brilho no olhar mais à frente, já no momento em que ao olhares o que tens percebes o porquê do que foi. Já viveste o suficiente para saber que tudo se compõe - e que muitas vezes só precisas de ajustar o foco, de humedecer a vista. A vida deve-te isso. A vida deve-nos isso. 
Avanças confiante: sabes que terás o melhor.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

12 de dezembro de 2012

Há conversas que se evitam a elas próprias. Não somos nós que as evitamos: elas evitam-se realmente.
Saímos da cama para um novo dia e pensamos "Não passa de hoje". Para que soe mais convincente ao interior, para que nos convençamos a nós mesmos, dizemos em voz alta, muitas vezes em frente ao espelho, apontando o dedo que agitamos ligeiramente enquanto falamos, marcando pausadamente as sílabas pronunciadas: 
- Não-pa-ssa-de-ho-je.
Mas passa de hoje. Passa de hoje como passou de ontem, como passou de anteontem e dos dias anteriores. Passa de hoje como passará de amanhã e de depois de amanhã. 
Não somos nós que as evitamos: elas que se evitam a elas próprias. Deixam-se ser atropeladas por outras, assumem sempre o último lugar na fila como se o fizessem por simpatia e não por medo. Evitam-se a elas próprias até que deixem de ser necessárias - ou até que uma outra conversa as traga à baila e as obrigue a existir. Evitamo-las até que deixem de ser necessárias ou evitamo-las até que tudo mude e a sua existência fosse simplesmente descabida.
E à noite, quando fechamos o dia, dizemos para dentro "Não somos nós que as evitamos: elas evitam-se realmente". Soando a falso, olhamos o espelho e dizemos em voz alta, com seriedade (e uma convicção exagerada):
- Não somos nós que as evitamos: elas evitam-se a elas próprias.

domingo, 9 de dezembro de 2012

9 de dezembro de 2012

Sentamo-nos à beira rio, no exato sítio em que o passeio termina e se inicia a descida até à água. Observo as gaivotas que nos sobrevoam e inspiro com vontade. Há pessoas a passar, pessoas que param nas nossas costas para fotografar os descobridores portugueses, para levarem no regresso um pedaço do que é nosso. Sorrio com vontade. Inspiro cheia de vontade. Abro os braços ao sol e depois abraço os meus joelhos.
Ouço-te perguntar 
- É só isto que queres para a tua vida?
Utilizas aquele tom que me faz duvidar da seriedade da questão, com um meio sorriso, um ar de quem quer saber mais.
Olho-te nos olhos, procurando um sinal, um restício de algo que me diga o objetivo da pergunta. Pode haver uma crítica, um julgamento prévio sobre o que tenho e sobre o que faço. Baixo o olhar, puxo mais as mangas do casaco preto de malha para que me cubram as mãos e olho o rio lá em baixo, para além dos ténis pretos de sola branca que trago do passado. Há barcos à vela a passar. Perto de uma dezena, com miúdos em formação.
O que é que tenho na minha vida? O que faço com o que tenho?
- Não, não é só isto que quero para a minha vida. - respondo - Quero para a minha vida tudo o que tenho hoje e tudo o que procuro para o amanhã - digo, gesticulando.
- O que tenho hoje - continuo - chega-me por hoje porque sei que fiz por o merecer. Cheguei aqui com os meus passos. Quis a vida toda num dia, quis que a vida fosse só o que tinha. Isso chegou-me?
- Não sei - dizes - diz-me tu.
- Não, não me chegou. Tapou-me os olhos e toldou-me os movimentos e os sonhos, mas não me chegou. O que tenho hoje eu já conheço e saboreio-o com gosto. Tenho liberdade para quase tudo e sinto-me completa na maior parte dos momentos do dia. Sou eu que escolho o que tenho, o que vivo - digo, cheia de convicção.
- Nunca és tu que escolhes tudo - dizes, rindo, com um gesto de desprezo perante a minha verdade.
- Não, não sou. Mas sou eu que escolho como vivo com o que me é dado e é aí que reside a minha liberdade. - afirmo - Sou eu que todos os dias e a cada momento decido lidar com tudo com vontade de aceitar de bom grado mas sem me contentar, sou eu que enfrento cada dia com vontade de o fazer melhor, de o fazer valer a pena.
- Como assim?
- No final de cada dia tenho de ter um balanço positivo. Se assim for então sei que o aproveitei, que fui capaz de o valorizar, de o fazer valer a pena. 
- Sim... - dizes, mostrando que estás a acompanhar o meu raciocínio.
- Então é isso: se o dia de hoje valer a pena sei que o que fiz com ele me chegou por hoje. Não pela vida toda, mas por hoje. 
- E pela vida? - questionas. 
- Pela vida tenho de ter um somatório de dias bons, de dias em que soube dar a volta, valorizar e valorizar-me. E encho a vida de pessoas boas, de sítios bons, ao mesmo tempo que eu própria me encho deles. Isso é o que quero para a vida. Se o conseguir hoje e amanhã então sei que estou mais perto do que quero para a minha vida. 
Não respondes. Olhas o rio mais ao fundo, no sítio onde se une ao mar e sorris. Olhas-me nos olhos e abanas ligeiramente a cabeça, dando-me um sinal de que estás assimilar o que te digo, as minhas verdades, e de que desejas profundamente que eu tenha razão porque isso significa que tu também estás mais perto de conseguir o que queres para a tua vida.

sábado, 8 de dezembro de 2012

8 de dezembro de 2012

Apoio as mãos nos braços da cadeira, ajeitando-me, e puxo os joelhos ao peito, abraçando-os. Puxo mais para mim a manta polar que sempre me entregam à chegada , envolvo-me melhor. Gozo as últimas horas do sol de inverno sobre a cidade, sinto-o em mim.
Ela está sentada na mesa do lado. Mais uma vez. A cadeira ao seu lado está vazia e há dias, em alguns especialmente, em que ela a olha com ar de quem gostaria que estivesse ocupada. Segura nas mãos um livro - um , vários, um por semana - e nas suas mãos, para além do livro, vai estando uma chávena que segura com as duas mãos, como se para as aquecer, enquanto o livro descansa nas suas pernas cruzadas à chinês. Para além do livro e da chávena, vão passando também alguns cigarros. Para além do livro, da chávena e dos cigarros, há sempre o telemóvel que passa de uma mão para a outra e por onde passam dedos rápidos. E, para além do livro, da chávena, dos cigarros e do telemóvel, um caderno preto, de linhas finas, e na mão direita uma lapiseira amarela.
Ela gostava que estivesses aqui e isso vê-se bem. Na verdade (mais uma verdade) ela gostava que pudessem partilhar mais dias, que pudessem vir aqui, sentarem-se aqui neste jardim com vista sobre a cidade e falar sobre os dias, sobre os dias que passaram na última década e meia e sobre os dias que estão para vir.
Frequentemente, quando a lapiseira amarela escreve rapidamente no caderno preto, ela inspira com vontade, de olhos fechados, e consigo vê-la a querer inspirar o futuro, talvez numa tentativa de o tornar presente.
Há um brilho especial nos seus olhos quando vê crianças. Talvez seja dos meus olhos sensíveis ao sol e da lágrima que por isso produzem em excesso, mas eu acho que às vezes a vejo a morder o lábio inferior nesses momentos e a inspirar com mais vontade - ao mesmo tempo que deita um olhar de fugida à cadeira vazia ao seu lado. Talvez esse seja o seu projeto mais ambicioso: ver-te sentado nessa cadeira e ter convosco uma produção conjunta. Não sei, a verdade é que grande parte são deduções. Muito do que escreve com a sua lapiseira amarela é arrancado ao conjunto e deixado, amachucado, em cima da mesa e eu confesso que por vezes, várias vezes, quase sempre, quando a vejo pousar os pés no chão e caminhar em direção ao portão sinto que os meus pés querem saltar da cadeira e caminhar até à mesa do lado para matar a curiosidade e entrar no seu mundo, tão ali à mão.
A cadeira nem sempre está vazia. De vez em quando, de quando em vez, alguém se senta na cadeira. Ela fica ali, ao lado da cadeira ocupada, mas não morde o lábio inferior ao ver crianças, como se não acreditasse num projeto conjunto dessa magnitude. Talvez ela acredite, em alguns dias, que a conjugação perfeita está feita, definida, e que mesmo que isso signifique sentar-se ao lado de uma cadeira vazia, esse é o melhor que o futuro e o passado têm para lhe dar. Talvez o que vocês têm seja o melhor que alguém pode ter, com os minutos infinitos de sorrisos e dores partilhadas, talvez não seja possível ultrapassar a estabilidade do que têm. Mas tudo o que te digo é antecedido de um «talvez» que é dito da mesa do lado, que é dito por quem está de fora e a observa no silêncio das tardes, por alguém que nunca te viu ocupar a cadeira vazia.
Volto a amachucar a folha, apertando-a com as duas mãos, fazendo com que se embrulhe sobre si mesma pelos mesmos vincos, pelas mesmas linhas e pouso-a no colo. Olho a mesa vazia ao meu lado. Já não é só uma cadeira vazia, são duas. Observo a folha amachucada e algumas linhas finas ali colocadas pela sua lapiseira amarela. Inspiro, inspiro com vontade, inspiro com a vontade de alguém que quer inspirar o futuro e torná-lo presente.





domingo, 2 de dezembro de 2012

2 de dezembro de 2012

Percebes que venceste a batalha quando dia após dia tudo o que antes eram atos forçados e conscientes se vão tornando tão naturais, tão automáticos.
Talvez não te recordes sequer da miúda que eras mas posso dizer-te, sem receio, de que hoje tudo o que és é infinitamente melhor. É-o em ti e é-o também ao redor. 
A vontade que tens de viver, e de o fazer sorrindo, propaga-se nos dias e expande-se em redor de ti mesma. Não sei ao certo onde é que te encontraste assim, não o consigo definir no tempo e no espaço e sei que tu também não. Ou sim, talvez sim, talvez saibamos afinal. Talvez te tenhas encontrado quando decidiste olhar para dentro, para o centro, para o órgão abaixo do cérebro. Não importa. O que importa é que te arrumaste, que arrumaste a vida, que arrumaste as pessoas e as histórias nas gavetas certas sem precisares de as manter fechadas à chave. Não há gavetas cheias de mais, nem gavetas proibidas: está tudo inpecavelmente arrumado.
Hoje caminhas com os teus pés, ao teu próprio ritmo e sabes pedir ajuda, sabes dar a mão quando tu ou os outros precisam - mas não caminhas mais com os pés dos outros. Orgulhas-te dos que te rodeiam e orgulhas-te de ti por teres sabido, por teres merecido, rodeares-te de pessoas assim.
Sorris. Sorris com vontade. E os sorrisos que se arrastam e se propagam no tempo e no espaço não dão nunca lugar ao vazio, antes a uma continuidade feliz que vale a pena registar em palavras, em imagens.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

28 de novembro de 2012

Sento-me contigo na esplanada, colocando em cima da mesa a embalagem dos pastéis, acendo um cigarro e ao expirar o fumo, depois de expirar o fumo, pergunto-te tranquilamente:
- A que te sabe a vida?
Franzes o sobrolho, soltas um meio sorriso, puxas de um cigarro (ainda por acender) e dizes:
- Café Mocca Branco, com extra chocolate branco no interior, não na cobertura. É a isso que me sabe a vida.
Pego no teu copo, seguro-o com ambas as mãos, rodando-o entre elas, aquecendo-as com ele, e levo-o à boca, fechando os olhos para o saborear.
- É a isso que me sabe a vida nos dias bons - dizes, apontando - nos outros, nos dias em que não dou o sorriso certo na hora do pedido, a dose extra de chocolate não é colocada da melhor forma e nesses dias o sabor não é tão doce. E há dias em que a vida tem esse sabor também.
 Sorrio. Esboço um sorriso de compreensão.
- E as pessoas? As pessoas também te sabem a isso?
- Às vezes. Às vezes as pessoas também me sabem a Café Mocca Branco com dose extra de chocolate branco. Mas é só às vezes. Noutras o primeiro golo engana.
- Como assim?
- Então, ao primeiro golo parecem-te doces mas, depois, ao segundo e terceiro esse sabor vai-se dissipando e o que fica não chega para valer a pena. Às vezes tudo o que conseguem é puxar-te cá para fora, cheia de expetativas, mas depois levam-te a concluir que, de vez em quando, todos precisamos de uma massagem ao ego. Às vezes eu sou a massagista, e tu também, aliás, somos todos. Massajamos egos alheios à espera da retribuição que não chega e é exatamente nessa altura, quando a massagem não chega até ti, que as pessoas já não te sabem a Café Mocca Branco com dose extra de chocolate branco mas apenas a café, sem açúcar. Aliás, em alturas como essas até a vida leva um pouco menos de chocolate branco.
Do outro lado da mesa ergo o meu copo e brindo a isso:
- À vida com doses extras de chocolate branco.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

26 de novembro de 2012

Rebenta a bolha.
Eu sei que só agora se formara, que era recente, mas, ainda assim...rebenta a bolha.
Já viste como te estavas a elevar rapidamente dentro dela? Onde irias parar? "Em lado nenhum", ouço-te dizer, e sorrio. Como é fácil para ti acreditar nisso?! Já viste o quão irreal é? Pois olha, eu digo-te, e digo-te sem receios da reação, digo-te para te proteger, digo-te ao mesmo tempo que a meus olhos a minha mão direita te toca ao de leve no cabelo - assim, como se faz com as crianças - sem que tu vejas o seu movimento, sem que tu o sintas. Ias parar bem lá a cima, bem acima de todos os outros e depois, depois de estares lá em cima, haveria uma brisa mais forte, quase vento, que rebentaria a bolha e tu catrapum cá para baixo - para aquele sítio normal em que vivem as pessoas que não sonham de mais. E por isso, para que o rebentar da bolha não provoque estragos demasiadamente grandes, para te proteger, rebenta a bolha. Rebento-te a bolha. Rebentei-a já.

domingo, 25 de novembro de 2012

25 de novembro de 2012


Sento-me à chinês, daquela forma contorcida que é já minha, e abro a mala. Há um cheiro que invade o quarto e me envolve. Breves minutos em que me cheira a ti – porque este era um cheiro tão teu. Fecho os olhos e inalo com vontade, para te sentir mais perto, para te fazer presente.
Sete anos desde a última vez. Sete anos em que andei perdida, sete anos em que me procurava a mim própria ao mesmo tempo que insistia em procurar-te no exterior. Caramba, sete anos é 1/3 da minha vida, 1/3 da minha vida em que não te voltei a tocar, em que não voltei a dizer o teu nome, em que, gradualmente, me fui esquecendo da tua voz, do seu sorriso, do teu cheiro. Batalhei contra o esquecimento e ao batalhar contra ele batalhei contra deixar ir a dor. Acreditei, inocentemente, que para te manter aqui teria de viver todos os dias as dores de não te ter. Ao viver essas dores, virei-me tão para dentro, tão para o interior, que me desliguei do mundo, me desliguei de mim e perdi o sorriso feliz de outrora.
Hoje eu sei que te trarei sempre comigo. Não te recordo todos os dias, não sinto a tua falta todos os dias, mas sei que cá dentro, bem no interior de mim há um santuário que é nosso, um santuário que limpo de tempos a tempos, que nunca se fechará para sempre. Mantenho-te vivo aqui e manter-te-ei vivo em cada um dos meus dias, em cada um dos meus passos, em cada um dos desafios a que me proponho – e aos quais gostaria que assistisses. Mantenho-te vivo em sorrisos e não em lágrimas, mantenho-te vivo sem que tenha de lutar contra o esquecimento.
Vivo por mim mas vivo também um pouco por ti. Vivo como tu, vivo mostrando orgulho pelos que me rodeiam, vivo perdendo o medo dos abraços, dos aconchegos, das palavras que muitas vezes se calam com medo das emoções. Vivo por mim mas vivo contigo. 
Retiro as fotografias uma a uma, soltando gargalhadas e lágrimas, soltando risos há muito perdidos, recuperando-te a cada uma das imagens. Chego-me mais ao espelho, segurando na mão direita uma fotografia tua. Procuro sinais que salientem os laços. Há coisas, sim. Há pessoas que mo dizem às vezes e me fazem feliz. Mas sei que os sinais maiores estão cá dentro, estão na forma como falo, como me relaciono, até como escrevo. Trago-te comigo, de forma feliz, em cada um dos meus dias, por cada um dos dias. Vivo feliz.

sábado, 10 de novembro de 2012

10 de novembro de 2012

Há verdades que se revelam quando a vida está desfeita, partida em cacos. Um dia, no meio do desespero que nos impede de a consertar, descobrimos que a cola, ou o que pensamos ser a cola, sempre esteve à nossa frente, ou melhor, mais do que à frente, sempre esteve ao nosso lado.
Depois a vida mostra-nos que a cola está em nós, que é disso que precisamos para consertar a vida desfeita, aproveitando apenas os cacos mais valiosos. E é então que consertada a vida, olhamos para trás, olhamos para a frente e percebemos que a verdade se mantem.
Há as verdades que se revelam quando toda a vida está feita em cacos e há as que se mantêm quando toda a vida está impecavelmente arrumada. E essas são as que valem realmente a pena.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

25 de outubro de 2012

Não procura mais em redor mas sim em si mesma.
Conjetura, constrói em jogos mentais, em puzzles do passado e do presente os elementos necessários à narrativa seguinte. Escolhe o início com requintes dignos das estórias de encantar, localiza a narrativa num tempo que é agora, num lugar que é este e procura enchê-la, preenchê-la, selecionar personagens à altura com atores que consigam passar o primeiro casting e se saibam sempre assumir como os melhores para o elenco.
Imagina peripécias, problemas e soluções. Fantasia verdadeiros contos de fadas - em que de vez em quando possa aparecer uma bruxa (que muito se pareça com ela mesma). Constrói toda uma narrativa, consegue elaborá-la capítulo atrás de capítulo numa catadupa de ideias sonhadas, desejadas, mas é isso. É apenas isso. Não passa disso. Quando pousa a lapiseira e fecha o caderno preto de linhas apertadas e o olhar se levanta para o mundo real por vezes o choque é grande, magoa até, fá-la gritar lá para dentro uma série de impropérios em tom crítico e de desdém para consigo mesma, tão capaz de idealizar e tão incapaz de viver.

domingo, 21 de outubro de 2012

17 de outubro de 2012


Não me quero nunca esquecer de onde estive, de como era viver naquele 2 cinzento sob o qual me arrastava pela vida e deixava que ela se arrastasse, arrastando-me com ela pelo futuro afora. Não me quero nunca esquecer porque essa é a única garantia de que me vou para sempre recordar do que custou chegar aqui, de como o que tenho agora é infinitamente melhor do que o que alguma vez tive.
O que tenho agora, o que sou, não é perfeito, nunca o será, mas isso é, por si só, muito bom. Não ser perfeito, não o ver como tal, é uma oportunidade para continuar a procurar, a procurar-me, sem me conformar, sem me contentar com o que tenho. Porque há mais, tem de haver mais, e a vida é isso também: a procura incessante de algo melhor, algo melhor que se constrói a partir de pequenas coisas, de peças, também humanas, que conjugamos de forma harmoniosa, girando à nossa volta, girando sobre nós mesmos, gerando sorrisos e afetos.
Mais, sempre mais. Não um 2, nunca mais um 2, mas sempre a caminho do 10.

domingo, 16 de setembro de 2012

16 de setembro de 2012

Vou acumulando falsas partidas. Ouço o sinal para avançar antes de todas as outras pessoas e saio disparada em direção à meta, iniciando um longo percurso em direção a ela, tão longo que quando parto não a avisto sequer - mas sei que quero percorrer o caminho e faço-o com vontade.
Avanço, avanço depressa e com toda a energia dedicada a essa missão. Avanço tão depressa que não olho nem para trás, nem para o lado. Quando finalmente o faço, quando desvio o olhar da meta, percebo que corro e que o faço totalmente sozinha. Lá longe, lá atrás, todos continuam posicionados atrás da linha de partida, aguardando pelo sinal para avançar - o mesmo que eu julgava já ter sido dado.
Foi tempo perdido num caminho que não devia ainda ter sido percorrido, num caminho pouco seguro que não se deve percorrer a solo. Lamenta-se o desperdício, deita-se fora a motivação que crescia ao ver a meta cada vez mais próxima e arrastam-se os pés, as pernas e o corpo todo de volta à linha da partida, num passo vagaroso, num ritmo de derrota.
Vou acumulando falsas partidas. Acumulei-as já. Acumulei o suficiente para ser excluída da corrida. Agora sento-me na bancada e assisto, assisto apenas, sem grande entusiasmo, com o olhar perdido oscilando entre a linha da partida e a meta, procurando escutar o sinal para avançar para o guardar cá dentro e o colocar em pausa.

25 de junho de 2012


Vejo-te mas não te vejo bem. Não sei se acredito ou se sequer quero acreditar. Tu estás aqui, tu vieste do teu fim do mundo e surpreender-me fez parte do teu percurso e agora eu estou aqui, completa pelas minhas pessoas e/mas tu também aqui estás e eu não sei se me sinto contente, se me sinto pressionada, mas um sorriso maior nasce em mim e ajudado ou não por este líquido rosado bem gelado que se vai sumindo na minha mão, este sorriso vai-se tornando maior, contagiando olhos e gestos. E abraço-te, afinal sempre te abraço e parece tão natural, sai-me tão bem. E os gestos vão saindo cada vez mais a dois, numa sincronia que não está tão bem sincronizada como sequenciada, mas na qual os gestos e as palavras se vão ligando. E tu ligas-te, tu e as outras pessoas ligam-se e eu ligo-me também e tudo funciona num circuito simpático e cheio de sorrisos, palavras e gestos simpáticos. E gosto, começo a gostar das pessoas que giram à tua volta e apetece-me girar como elas, giram com elas e contigo, fazer parte desse circuito. E faço, prolongo a noite fazendo parte, tornando-me parte. Quando me torno parte colocamo-nos à parte e seguimos à parte de tudo o que gira em torno de nós. E nós giramos também. Talvez cada um de nós o faça por si mesmo mas a verdade é que o fazemos também a dois.
Vamos girando, mas vamos sincronizando, juntando, procurando encontrarmo-nos nesse trajeto. Ou não, talvez não, talvez só procuremos girar juntos porque assim o fazemos mais depressa. Depressa. Giramos depressa em conjunto mas ao pararmos de girar quebramos o conjunto e somos dois corpos soltos, pousados lado a lado, um de nós pensando no porquê, o outro adormecendo após o porque. Girámos e parámos e quando um de nós quer continuar a girar a presença do outro parado incomoda, como se ocupasse demasiado espaço e assim impedisse uma nova circunferência. Há um de nós que quer abanar o outro e falar sobre o porque para chegar ao porquê, mas quando o outro começa a girar em sentido contrário as circunferências não se cruzam mais, não é possível partilhar informação e ficamos cada vez mais distantes. Dois corpos soltos não pousados lado a lado mas dois corpos soltos caminhando em sentidos opostos.
O corpo solto que és tu quer ficar, o corpo solto que sou eu quer que vás, não por não querer que fiques mas por não saber o que fazer com a tua presença. Então circulas para longe, não te colocas mais à parte do circuito de que fazes parte, antes o reintegras. E eu assisto, ou queria assistir, ao mesmo tempo que circulo ora para a frente ora para trás, procurando reencontrar o rumo que, de girar tão depressa, se tornou pouco claro. E circulo, vou circulando, para a frente e para trás, por vezes nem chegando a circular mas apenas a balouçar suavemente, hesitante, procurando perceber que pessoa é esta que circula assim com vontade, girando depressa em direção a ti mas que questiona o porquê e evita o porque, ora empurrando ora puxando, procurando estabilizar a circunferência na vertical – e não na horizontal – num ponto a meio caminho do ir e do ficar, mas num ponto não horizontal, não horizontal com dois corpos pousados lado a lado mas vertical, com dois corpos circulando lado a lado, ou estabilizados lado a lado, mas lado a lado, na vertical.

21 de maio de 2012


Uma semana inteira como se estivesse bem.
Sento-me na cadeira (não muito) confortável, pouso as mãos delicadamente no colo (como que para completar o quadro de pessoa já muito equilibrada que tenho vindo a pintar para mim mesma), observo a janela com um brilhozinho nos olhos e abro a boca para uma qualquer conversa de circunstância pré-preparada na minha mente ao longo dos últimos dias.
De repente poderia ser só eu e a janela luminosa, só eu, a cadeira e os raios de sol que atravessam  a ganga das minhas calças, me tocam a pele e me aquecem de forma exagerada. Desejo que fôssemos só nós, objetos inanimados. As minhas mãos estão a apertar-se uma à outra enquanto eu me questiono (talvez em voz alta) porque estou ali, o que faço ali sentada, do que me vou queixar desta vez.
Mexe e remexe cá dentro e isso incomoda-me. Quero descalçar-me e caminhar descalça pelo chão (que imagino) frio; quero sentar-me à chinês daquela forma demasiadamente contorcida de que tanto gosto; quero gritar palavrões e perguntar o que raio estou eu ali a fazer. E as palavras ou as lágrimas, as palavras e as lágrimas, vão saindo por entre aquele nó que me aperta a garganta e me transforma num sussurro esganiçado. Choro por todas as coisas e inclusivamente choro por chorar, e choro por chorar o que não cheguei a ter e o que questiono se algum dia chegarei a ter. Choro o que não sabia ainda ter para chorar, choro as incógnitas da vida que deveria estar a celebrar, choro as inseguranças ou a falta de conhecimento desta vida que se me apresenta a cada dia.
E há toda uma tensão a transformar-se numa enorme dor de cabeça – não sei se para me avisar de que está a chegar se para me informar da sua partida.
Gostava que tivéssemos sido só nós: eu, a cadeira (não muito confortável) e a janela luminosa por onde entrava o sol que atravessava a ganga das minhas calças e me aquecia as pernas de forma exagerada. Gostava que tivéssemos sido só nós desta vez. Talvez da próxima – penso que ainda não.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

29 dezembro 2011 - Procuro-te...

Procuro-te desesperadamente, procurando encontrar-te no exato local em que te deixei, no exato momento em que te deixei.Foi há já bastante tempo (há demasiado tempo?)

Pensei que fosse fácil. Pensei que te pudesse deixar e recuperar-te a qualquer momento. Voltei atrás uma (enorme) série de vezes, sempre sem sucesso. Podias ter partido, momentaneamente, por um curto período de tempo. E voltei. Fui voltando. Em alguns momentos julguei (julgo) ter-te perdido para sempre. Procurei-te por entre semelhantes: procurei-te em registos do passado, em tempos idos, quando tudo contigo era tão fácil e tão natural que tudo o resto parecia acessório. Procurei-te realmente. Sem sucesso. Procurei-te por entre semelhantes, em páginas e páginas de semelhantes, das quais muitas vezes partimos juntos. Mas não te encontrei. Repeti a pesquisa. Em momentos de aflição (essencialmente, em que sempre estiveste comigo) mas também nos outros (poucos - consequência apenas da forma como vejo as coisas, não da realidade vivida).

Procuro-te com necessidade, uma necessidade do teu abraço nunca visível mas tão saboroso e protetor. Procuro-te para me esconder em ti e contigo. Porque contigo tudo é fácil, bem mais fácil. Procuro-te para vivermos juntos o resto da vida. Eu sei, abandonei-te. Abandonei-te há já 6 anos. Talvez em parte te tenha deitado ao mar naquele pote pesado e quente, no final daquele verão a partir do qual tanto (tudo?) mudou na minha vida. Talvez tenha tentado comandar-te demais, orientar-te demasiado, decidido que tinhas de te apaixonar como eu me apaixonei. Talvez tenha sido isso. Talvez quisesses que continuasse livre, quando o que te comandava era a minha cabeça e não apenas e somente o meu coração.

Mas hoje, sentada "à chinês" (como nos bons velhos tempos), empunhando esta lapiseira preta e escrevendo-te neste caderno preto de capa dura e linhas de espaçamento bem pequeno, sinto-te já mais perto. E sei que estaremos juntos para o que der e vier. Apenas uma folha e qualquer coisa que escreva. Não é "um amor e uma cabana" mas quase. E é tão bom.