segunda-feira, 25 de março de 2013

25 de março de 2013


(banda sonora para a leitura)

Se é para ir vai com tudo.
Sempre foi assim, sem meias medidas.
Aproximaste-te da beira e saltaste a pés juntos. Não olhaste em redor, não viste as marcas da profundidade, não espreitaste lá para baixo. Saltaste a pés juntos para o que havia de ser, sem saberes o que era, sem saberes o que querias que fosse.
Saltaste a pés juntos, de nariz tapado, respiração suspensa. Não inspiraste, não expiraste e até os olhos mantiveste fechados enquanto o teu corpo permanecia suspenso.
Saltaste a pés juntos cheia de convicção em direção ao vazio. Deixaste-te ficar, corpo esticado, em direção ao fundo. Abriste os olhos e o que viste não chegou para te tranquilizar. Não havia fim à vista, não havia uma beira a que te pudesses apoiar. Soltaste o nariz, soltaste os braços e as pernas. Soltaste a respiração. Abriste muito os olhos, procurando ver mais à frente, mais longe. E mexeste-te. Mexeste-te cheia de pressa, com o sangue a circular mais depressa nas veias, aquecendo-te a pele. Abriste e fechaste braços e pernas, afastando-te em direção a parte incerta. E subiste, subiste em direção à tona, subiste até que os teus olhos encontrassem a luz e as palmas das tuas mãos encontrassem a beira para, de uma só vez, ergueres todo o corpo e te soltares da água. 
Arrefece-te a pele ao parares. Pontas dos dedos enrugadas, pernas que te tremem lá em baixo. Sempre foi assim, sem meias medidas.
Saltas a pés juntos uma e outra vez. Porque se é para ir então que seja com tudo. Uma e outra vez.
E a cada salto a tua pele vai-se tornando mais resistente à temperatura. Fria ou quente. Movimentas-te com mais pressa, mais medo, mais vontade. Crias uma camada protetora mas sabes que vais, que não ficas, que não deixas de saltar. Uma e outra vez. Saltas convicta. Saltas com tudo.
Porque, se é para ires, então vais com tudo. Em tudo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

18 de março de 2013

(banda sonora)

De cada vez que os teus pés pisam o chão calcas bem fundo mais uma questão. Uma atrás da outra.
Questão, questão.
Questão, questão.
Inspiras e expiras de abdominal contraído - e o órgão que trazes ao peito apertado.
Corres. Corres para longe ou corres em redor. Passada atrás de passada.
Questão, questão.
Questão, questão.
Calcas com força o chão e corres para longe antes que te possam apanhar.
Questão, questão.
Questão, questão.
Inspiras e expiras e perguntas em silêncio ao orgão no topo de ti quando poderás parar.
Questão, questão.
Cada um dos teus passos continua a depositá-las mais abaixo, mais fundo, esperando enterrá-las bem - longe de onde estarás na próxima passada.
Abrandas. Mentalmente, vejo-te abrandar. Dentro das calças pretas que se te colam à pele vejo as tuas pernas, de repente tão esguias, a abrandarem. Os teus joelhos continuam a fletirem-se, um após o outro, mas demoradamente, como se por momentos pairasses apenas, por segundos infinitos em que um dos teus pés já se levantou mas o outro ainda não tocou o chão. Moves-te como que em câmara lenta. Um joelho. Um pé. Outro joelho. Outro pé.
Questão.
Questão.
Questão.
Questão.
Observo-te em silêncio nessa corrida de compasso lento, demorado. Observo os teus olhos a molharem-te todo o rosto e o punho da camisola a enxugá-lo depressa - para que eu não veja, para que tu própria não o vejas. Enxugas com pressa e com algo mais. É o brilhozinho frio que acompanha cada passada que dás com força, assentando no chão, com todo o teu peso, cada uma das questões que trazes em ti.
E continuas.
Questão, questão.
Questão, questão.
Um pé atrás do outro, passada após passada, calcas bem fundo no chão tudo de que te queres livrar.
Paras. De repente paras. Apoias as mãos nos joelhos, inspirando e expirando apressadamente, com o órgão que trazes ao peito a bater descompassadamente. Inspiras e expiras a custo. Respiras alívio. E, de pernas bem esticadas, levas também ao chão as palmas das tuas mãos, esperando que ao esfregá-las no chão ajudes a enterrar mais fundo tudo o que a custo calcaste já com os pés.

terça-feira, 12 de março de 2013

12 de março de 2013

Quantas das tuas palavras são silêncios demorados em que ninguém parece reparar?
Os olhos expressivos que procuram substituir a voz. A lapiseira na ponta dos dedos a prolongar o silêncio sonoro. Os dias que se arrastam sem que uma palavra seja trocada.
Eu reparo. Eu reparo no silêncio, em cada um deles. Eu reparo nos silêncios e procuro dar-lhes voz. Analiso cada um deles à luz da história que é a tua. Por cada silêncio teu eu crio uma palavra.
E vou somando palavras. Um conjunto infinito delas. Uma sequência sem critério. Ligam-se pouco umas às outras, apenas aqui e ali. E formam uma sequência aleatória que nos atira para a frente e para trás, opondo-se muitas vezes umas às outras e seguindo numa ordem desordenada que se traduz em silêncios demorados e sem nexo, capazes de nos afastarem da origem.

sábado, 9 de março de 2013

7 de março de 2013


(banda sonora para a leitura - há que encontrar o ritmo)

Uma espécie de jogo das cadeiras. Cada vez que trocarmos de lugar trocamos de personagem, falamos de nós próprios na terceira pessoa do singular. Colocamos todas as questões.
Salto para o outro lugar, cruzo as pernas à chinês, levo o vidro à boca e solto uma gargalhada isolada quando o meu olhar se cruza com o teu do outro lado da mesa. Questiono. Atiro perguntas que só posso fazer quando não sou parte da questão. Vejo os teus olhos abrirem-se mais de espanto a cada uma mas encolho os ombros, de sorriso posto, perante a inevitabilidade da resposta - e a perspetiva de não haver lugar a ressentimentos agora que eu não sou eu.
Troca. Sou eu outra vez. Respondo por mim quando tu já és afinal elemento externo.
Troca.
Troca.
Troca.
Troca.
Pausas momentâneas para substituir vidros, para acender cigarros. Não há perguntas sem resposta nem tempo para as ponderar. Eliminam-se os filtros agora que voltámos a ser outras pessoas que não estas.
Troca.
Troca.
Troca.
Troca até que as perguntas se esgotem. Troca até que tudo tenha sido esmiuçado.
Troca.
Troca.
Troca até que estejamos prontos para retomar o nosso lugar normal. Troca até que, depois de tudo dito, possamos prosseguir do ponto em que estamos.
Troca.
Troca até à exaustão.
Troca.
Troca até que caiamos nas cadeiras absolutamente estafados e com uma gargalhada conjunta e demorada capaz de arrumar cada resposta no devido lugar.

quarta-feira, 6 de março de 2013

5 de março de 2013

 
(banda sonora para a leitura)

Sentada na cadeira do gabinete branco enfrentas a medo o fantasma maior em ti. Inspiras e expiras a custo, forçando o ar a passar pelo túnel cada vez mais estreito que te liga ao exterior.
Fitas os olhos no topo da bata branca enquanto o ouves a desmanchar todos os castelos assombrados que ergueras em tão pouco tempo. Ouves as explicações e mentalmente vais traçando cruzes por cima de cada uma das fases que ele queimou. Revês o passado e procuras ligar as palavras a fases diferentes. Procuras localizar no tempo cada uma das etapas em que ele poderia ter parado, em que ele poderia ter evitado todas as sombras que trazemos connosco, em que ele poderia ter evitado tudo o que nos trouxe, em que ele poderia conquistar tempo aqui. Eliminas mentalmente, uma a uma, cada etapa que fez por ignorar, e por cada etapa uma imagem mais desfeita, mais pequena, mais minguada de si.
Sentamo-nos nesta cadeira vezes sem conta para que connosco seja diferente. Erguemos castelos assombrados que nos lembram as histórias que trazemos em nós e esperamos, esperamos com força e com uma vontade tamanha, que alguém nos ajude a desmanchá-los.

segunda-feira, 4 de março de 2013

3 de março de 2013

(banda sonora para a leitura)

Puxo-te para baixo para que não me leves contigo. Tens a minha mão segura na tua e levas-me contigo em cada uma das tuas subidas. É por isso que te puxo. Quero os meus pés bem assentes na terra e caminhar seguro em cada um dos meus passos.
Já andei lá por cima. Já vi as vistas, já sofri as vertigens, já caí lá em baixo. A queda foi tão grande que me pareceu demorada: segundos infinitos em que revi cada momento, em que ouvi de novo cada uma das palavras, em que revi cada um dos sinais de aviso que havia ignorado. Vezes sem conta. Revi cada momento à medida que um nó maior se formava em mim. E de repente o silêncio, o escuro em redor. Tudo o que há é uma dor maior em mim. Estou em choque. Tenho um nó na garganta, um nó no estômago - e suponho que também nos olhos, nos ouvidos. Nada entra, nada sai. Quero levantar-me. Quero comandar o meu corpo, ordenar-lhe que se recomponha, que se levante inteiro e caminhe para longe. Mas estou esmagado por este peso no peito e o que tenho não chega para o mover. Eu sei que se me deixar ficar ele acabará por passar.
Seguras a minha mão na tua e caminhamos juntos lado a lado. Mas há, entre elas, entre as nossas mãos, nas nossas mãos, uma tensão maior. O meu braço está a ser puxado, todo eu estou a ser puxado para cima, numa diagonal ascendente. E puxo-te. Puxo-te porque trago ainda um peso maior no peito, porque de cada vez que penso em subir todo o meu corpo se contrái ao pensar na descida.
Puxo-te para baixo para que não me leves contigo, para que me deixes caminhar seguro em cada um dos meus passos - para que não haja nunca uma dor maior em ti e um peso que te esmague o peito.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

26 de fevereiro de 2013

(banda sonora para a leitura)

Fechas os olhos enquanto sentes o sol a passar por entre os ramos das árvores e a chegar até ti, aquecendo-te por fora. Inspiras e expiras com algo mais do que ar a querer sair de ti, a querer sair acima das vias respiratórias. Inspiras e expiras com um nó maior a formar-se na garganta e uma vontade grande de ser mais, de lutar por mais, de pedir mais. Inspiras e expiras segurando em ti todo o resto para além do ar. Inspiras e expiras. Olhos fechados. Sol. Inspiras e expiras e deixas-te levar pela banda sonora que trazes aí dentro. Os teus lábios mexem-se suavemente, murmurando todas as palavras que tão rapidamente se colaram a ti. Há um nó na garganta e há um nó maior a apertar-se devagarinho no peito, no órgão que te põe o sangue a correr mais depressa pelas veias quando murmuras para dentro as palavras que não te permites dizer em voz alta. 
Há um nó na garganta, no órgão que trazes ao peito e no outro, lá mais em cima. Lá em cima não há só um. Lá em cima tens um órgão que só é órgão devido ao emaranhado de nós que ali se acumularam. Todo o volume que tem são nós. Nós que não se desfazem. Nós que se embrulham e que te prendem neles. Prendem-te mais à medida que o nó que trazes ao peito se aperta mais, à medida que o sangue te corre cada vez mais devagar pelas veias e o o nó na garganta cresce até formar um novelo que te cala a voz e te bloqueia o ar. Inspiras e expiras mas a dada altura o que fazes é apenas abrir e fechar a boca. Abres e fechas a boca sem que o ar entre ou saia. E nos teus olhos, ainda com a banda sonora a tocar cá dentro, há um brilho maior e molhado, um brilho maior e molhado que ameaça espalhar-se por todo o rosto, escorregando para o resto de ti.
 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

24 de fevereiro de 2013


Parte I - leitura prévia

Parte II



Agora que pisaste os dois tapetes, agora que te deixaste ficar, descalça, de olhos fechados, em cima de ambos, percebes que nenhum é totalmente suave.
É verdade que conheces bem a textura (áspera) de um e que, ao início, a suavidade do outro te assustava, como se ao colocares um pé tivesses sempre receio de onde estarias a colocar o próximo. Depois, quando, ainda que a medo, te deixaste ficar, circulando devagarinho, avançando, deixando que os teus pés, a ponta dos teus pés, descrevessem pequenos círculos no chão, sentiste-te segura, sentiste-te confortável.
Não é totalmente suave. Talvez tenha sido isso a deixar-te confortável. É macio, sim, muito mais macio do que o outro, mas não totalmente. Quando os teus pés o tocam mais ao de leve, quando se deixam arrastar à superfície, há pedaços pequenos que te arranham, que te recordam sensações anteriores, que levam de volta ao passado e te recordam que tu serás sempre tu. Não há fuga possível. Não podes fugir para fora de ti mesma. Não podes levar a mão ao peito ou, mais acima, ao órgão acima de ti e substituí-los e é isso que faz de ti o que és.
Mas agora, agora que pisaste o tapete novo, agora que te deixaste ficar, descalça, de olhos fechados, em cima dele, percebes que te podias deixar ficar. Podias dobrar os joelhos, baixar todo o corpo em direção ao chão, podias senti-lo na tua pele. Agora que pisaste o tapete novo podias deixar-te ficar, podias deixar que a tua pele ficasse em contacto com ele em toda a sua extensão, podias deitar-te aqui e deixares-te ficar envolvida por ele, podias deixar-te ficar aqui com um só órgão a bater-te pelo corpo, com o órgão no teu peito a comandar-te as ações, com um total silêncio no topo de ti. Os teus pés dariam passos pouco seguros de cada vez que tivesses de te levantar, mas avançariam, e à medida que os passos se fossem acumulando tornar-se-iam mais seguros e tu poderias avançar em segurança, poderias avançar respeitando a nova cadência que te bate no peito.



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

20 de fevereiro de 2013

É a bagagem que transporto comigo e de que não me consigo livrar. Equilibra-me, por vezes, refreando-me os impulsos exagerados. De outras, o seu peso exagerado dificulta-me o passo, puxando-me para trás, não me deixando avançar. E andamos assim, avançando e recuando, numa espécie de dança desengonçada pouco harmoniosa e sem fim. Não se troca o par - mas talvez se devesse, especialmente quando este nos pisa os pés desta forma.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

14 de fevereiro de 2013

Tic-tac, tic-tac.
Consegues ouvi-lo a bater-te no peito, pendurado da corrente prateada que te rodeia o pescoço.
Tic-tac, tic-tac.  
Sempre a mesma cadência, sempre os mesmos intervalos, sempre o mesmo volume.  
Tic-tac, tic-tac.
Fechas os olhos perante uma imagem que te salta da memória e inspiras com força, inspiras com necessidade de oxigenar o sangue que te corre depressa nas veias. Inspiras cheio de ansiedade. E à medida que o ar te entra pelo corpo a tua respiração acelera-se, o órgão que te bate no peito agita-se e o
tic-tac, tic-tac
que ouves, pendurado na corrente prateada que te rodeia o pescoço, parece mais rápido, cada vez mais rápido. Inspiras e expiras tentanto controlá-lo. 
O ar, que antes descia aos pulmões e te oxigenava o sangue que te corre cada vez mais depressa nas veias, acumula-se-te na garganta, empurra-se mais a cada inspiração e enquanto te esforças por o deixares passar sentes pequenas gotas a escorregarem, lentamente, pela tua testa, rodeando-te os olhos, enevoando-te a vista. Puxas as mãos trémulas até à cara, usas as suas costas para tentares afastar as gotas que te escorregaram da testa e as outras, que te saltam dos olhos agora que ao abrires e fechares a boca uma e outra vez nada passa. Procuras apoiar-te no vidro atrás de ti tateando-o com uma mão, trémula e fria, ao mesmo tempo que a outra afaga o pescoço procurando assim desbloquear tudo o que ali se reuniu. A mão que te percorre o pescoço, afagando-o, sente o frio da corrente prateada e deixa-se escorregar até que o 
tic-tac, tic-tac 
esteja em contacto com a sua palma.
Abres e fechas a boca com lágrimas que te caem dos olhos e todo o rosto banhado por gotas que não são apenas de choro, com gotas geladas que te escorregam pelo rosto. Abres e fechas a boca e nada entra, nada sai. E então percebes que o 
tic-tac, tic-tac
que te bate no peito já não tem a mesma cadência, já não tem os mesmos intervalos, já não tem o mesmo volume.
O
tic-tac, tic-tac
bate-te no peito bate cada vez mais devagar e às mãos trémulas juntam-se umas pernas sem forças, uns braços caídos, um rosto molhado. Embrulhas-te sobre o 
tic-tac, tic-tac
que quase já não te bate no peito e sentes o frio do chão em contacto com a tua pele, com os olhos muito abertos a olhar a parede lá mais em baixo, o pedaço de parede que se une ao chão, enquanto uma mão te afaga o pescoço e a outra se deixa ficar sobre o 
tic-tac, tic-tac
procurando fazê-lo voltar ao seu ritmo, ao seu 
tic-tac, tic-tac
regular, ao seu
tic-tac, tic-tac
que te coloca o sangue a percorrer as veias e permite que, ao abrires e fechares a boca, este seja oxigenado.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

12 de fevereiro de 2013

Vou apaixonar-me por ti vezes e vezes sem conta. Vou fazê-lo repetidamente, vou senti-lo a partir do peito e por todo o corpo, vou senti-lo a correr-me pelas veias e depois vou bater em retirada.
De todas as vezes, de cada uma das vezes em que o sangue me correr pelas veias mais depressa, em que o órgão no peito bater mais depressa por ti, eu vou bater em retirada.  Vou assustar-me com a sua dimensão e com todas as perspetivas, vou tremer de medo, vou encontrar justificações para me afastar, vou envergar a armadura (mais uma vez) e bater em retirada.
Procuro tantas justificações, tantos motivos, que inevitavelmente os encontro em grande quantidade. Muitas vezes são contraditórios, muitas vezes no órgão no topo de mim travam-se duelos sem igual, debatem-se as complicações, debate-se o facilitismo. E de repente, no meio dos dias que correm devagar demais, acorda-se com a certeza de que bater em retirada é a melhor solução, que bater em retirada é a forma de evitar danos maiores, que é a forma de não danificar a armadura.
Abana-se a cabeça, esfregam-se as fontes, contorcem-se as mãos, fuma-se mais um cigarro, morde-se o lábio inferior até quase dar cabo dele. Inspira-se e expira-se com um nó maior na garganta e um medo crescente por cada um dos dias. Abrem-se muito os olhos ao espelho quando por debaixo deles se encontram manchas negras das noites que não querem avançar. E ao abrir os olhos, abre-se o peito e deixa-se sair. E de repente não há mais o que temer, não há nada mais a correr-te pelas veias, não nada a agitar-te a partir do peito. Estás segura aqui com a pele a tocar o metal em teu redor.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

9 de fevereiro de 2013


Este preto que é cheio de coisas e que ao pesar-te nos ombros te lembra tudo o que és, tudo o que foste, tudo o que fizeste já desde o dia em que pela primeira vez te cobriste com ele. Este preto que trarás sempre contigo, que será sempre parte de ti, que responde também à pergunta
De que camadas és feita?
e te faz sorrir ao recordar o passado. Este preto que é cheio de coisas, cheio de momentos, cheio de pessoas. Este preto que é sorrisos, que é lágrimas, que é gargalhadas e gritos, que são pessoas que chegam, pessoas que partem e pessoas que tornam a chegar. Este preto que te mudou a vida, que marcou momentos, que te fez menina-mulher, que te fez mulher, que te manteve sempre acompanhada e que hoje te faz cheia de certezas. Este preto que também és tu, que és tu e todos eles, que és tu, vocês e tudo o que são juntos.
Este preto que colocas aos ombros com uma emoção sempre grande, com uma responsabilidade crescente, com um orgulho maior.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

1 de fevereiro de 2013

Consegues antever o momento. Conseguiste fazê-lo. Fizeste-o em cada uma das vezes em que pegaste em tudo de forma atabalhoada e seguiste em frente sem que nada te impedisse. De cada vez que o fizeste conseguiste visualizar o momento em que tudo se desprenderia das tuas mãos para cair, despedaçando-se, aos teus pés.
Olhas o chão agora, procurando com os olhos bem abertos pequenos pedaços que possam permanecer intactos.Despedaçou-se tudo aos teus pés, com cada uma das partes a quebrar-se em pequenos cacos de reconstrução impossível, com o som de mil pedaços a embaterem no chão e a quebrarem-se, como que infinitamente, em teu redor.
O som do embate, o som dos mil pedaços, os mil pedaços. Tudo foi antevisto por ti em cada um dos dias em que pegando em cada coisa de forma atabalhoada fizeste questão de avançar sem que ninguém te impedisse.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

29 de janeiro de 2013

Estas paredes brancas que se parecem com todas todas as outras paredes brancas de sítios como estes. Não há o cheiro - mas ninguém precisa do cheiro quando o traz dentro de si.
Perdi a conta aos dias, aos momentos, em que sentada em salas sem identidade esperei por respostas, por mensagens esclarecedoras.
Sentada nesta cadeira olhando o branco à minha frente, ao meu lado, em todo o lado, espero novamente por respostas. Espero enquanto revejo o passado, enquanto recordo todos os dias em que este branco me rodeou por tempo demais. Era tão mais fácil sentar-me e esperar se não tivesse um passado em sítios como este, se todo esse passado não ameaçasse cair-me em cima enquanto espero.

domingo, 27 de janeiro de 2013

27 de janeiro de 2013

Seguro o copo com ambas as mãos e trago-o à altura do queixo. Deixo que a cabeça descaia, que se apoie no plástico da tampa, enquanto o calor do copo se estende às minhas mãos.
O vidro está a ficar molhado. São gotas. Primeiro pintas, depois pintas que se estendem em linhas quase retas, com pequenas curvas e contracurvas, tão ligeiras, tão suaves, que um olhar menos atento poderia não conseguir distingui-las. Está a chover lá fora. É lá fora, sim, mas em alguns momentos parece-me que é cá dentro, parece-me que se esticar o dedo indicador poderei sentir a água gelada de encontro à minha pele.
Observo as gotas, primeiro pintas, depois linhas, e as luzes amareladas que se espelham no vidro na noite que agora começa a cair. É agora, é daqui a muito pouco, mas a chuva que caiu das nuvens negras durante todo o dia, durante todos os últimos dias, parece ter trazido a noite há já muito tempo.
Beberico, levando o copo aos lábios, e deixo que o café, o chocolate e o leite me aqueçam, estendendo o calor do copo para além das minhas mãos.
Sinto cada gota no vidro como se fosse em mim. Cada gota que embate contra ele podia estar a tocar-me a pele. Cada gota que escorre por ele abaixo poderia estar a escorrer aqui, podia estar deslizar, podia demorar-se até parar, hesitante, no meu queixo. E o meu dedo indicador que se estica para verificar que as gostas estão lá fora podia afinal tocar-me a pele, amparando as gotas desde o início do seu percurso.
Fecho os olhos, deixando que o café, o chocolate e o leite quentes se mantenham por ali, espicaçando as pupilas gustativas e fazendo-me esquecer que lá fora há gostas de água a bater contra o vidro e a escorrer por ele abaixo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

25 de janeiro de 2013

Levanto os olhos das mãos, do copo de papel, da mesa de metal verde. Levanto-os a medo, levanto-os enquanto as palavras se passeiam na minha boca, enquanto o orgão acima do pescoço as mastiga demoradamente. Mastigo as palavras enquanto a tua pergunta me ecoa nos ouvidos
- O que é que querias fazer?
O orgão acima do pescoço mastiga as palavras, os ouvidos digerem o significado das tuas, os meus olhos procuram os teus à procura da coragem para que a boca se abra e deixe sair as palavras.
- Eu queria voltar atrás - digo numa voz sumida. - Queria tão somente poder voltar atrás. 
Os teus olhos abrem-se mais, os teus lábios mudos de espanto.
- Sim, eu queria voltar atrás. Eu queria voltar ao conforto do silêncio que se guardava cá dentro, ao conforto das palavras acumuladas harmoniosamente, ligadas de perto ao bater suave do órgão que me pulsa no peito. Sim, eu queria voltar atrás e abdicar à partida, abdicar antes da partida, destes sons silenciosos que me embalam depressa de mais, que me agitam na confusão da sua ida e da sua vinda, que aceleram o sangue que me circula nas veias, que me trazem do peito diretamente ao orgão acima do pescoço todas as palavras silenciosas de um cinza pálido antes camufladas. Sim, eu queria voltar atrás. Eu queria voltar atrás ao antes de saber o que era, ao antes de saber que queria, ao antes de saber que trazia comigo todas as palavras. Sim, eu queria voltar atrás. Queria voltar atrás ao tempo em que, fechando os olhos, não havia palavras a percorrerem-me o interior das pálpebras a um ritmo acelerado e com cores fortes, ao tempo em que, por detrás das pálpebras, havia apenas um branco e letras de um cinzento tão claro, tão ténue, tão apagado, que os dias corriam sem dar por elas.
Os teus olhos muito abertos do outro da mesa, os teus ouvidos a mastigarem os sons que me saem dos lábios, o órgão no topo de ti a digeri-los devagarinho, o sangue a circular-te mais depressa nas veias, a levar com ele cada pedaço de som até ao orgão que te pulsa no peito e te faz morder o lábio para esquecer que há uma dor maior que te embala o corpo.
 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

23 de janeiro de 2013 (parte II)

Calo as perguntas, ao mesmo tempo que o meu balão de insegurança, que antes transportava comigo para todo o lado debaixo do braço, quase me envolve. É ele que me transporta agora.
O balão esta cheio, tão perto de rebentar que de quando em vez tenho de lhe aliviar um pouco a pressão.
E usas analogias.
Sim, uso. Uso analogias porque são a forma de dizer sem o fazer realmente - ou a forma de, dizendo, poder refugiar-me nas múltiplas interpretações possíveis. Uso as minhas analogias e, por vezes, coloco questões. Coloco-as cheia de medo e, de cada vez que o faço, enquanto aguardo a resposta, o balão de insegurança aumenta tanto que as tuas palavras, à partida tranquilizadoras, conseguem apenas devolvê-lo ao tamanho anterior - e não mais. E é por isso que acabamos por voltar sempre ao mesmo: comigo a usar analogias para obter respostas que possam aliviar a pressão no balão da insegurança - e com nenhuma das respostas a conseguir o efeito necessário.
Vou levantar os olhos agora. Vou levantar os olhos da calçada escura, vou pousar o copo vazio no chão e acender mais um cigarro e vou olhar para ti, sentado ao meu lado neste degrau de pedra. Vou olhar-te a medo, e sei que o meu corpo vai contrair-se mais, mas agora que o som saiu pela minha boca, acompanhando o seu abrir e fechar, já me podes tocar e puxares-me para ti. Vão haver espasmos à medida que o nó molhado se desfizer na minha garganta - mas agora que já podes quebrar a contração do meu corpo, agora que já não há sons que possam sair abafados ou soluçados não precisas de te manter a alguns centímetros.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

22 de janeiro de 2013 (parte I)

Passo por ti uma vez. Estás sentada no degrau de pedra, cigarro numa mão, copo com tonalidade rosa na outra - e o olhar para além do chão, num sítio mais fundo, mais distante. Passo por ti uma vez, hesito, e volto a passar. Volto a passar para ficar, para, sem palavras, me sentar ao teu lado, a poucos centímetros de ti e me deixar ficar a ouvir-te no silêncio.
Não me olhas - não de frente - mas quando os meus olhos pousam em ti, procurando palavras que os teus lábios não dizem, o teu corpo contrai-se subitamente, procurando controlar os espasmos de uma dor escondida. O teu corpo inteiro quer ceder - só o órgão acima do pescoço o faz manter enclausurada a dor.
Hesitas. Abres a boca uma e outra vez. Abres a boca e pareces surpreendida com a total ausência de som. Passas a mão pelo pescoço, sobre a garganta, procurando assim desfazer o nó molhado que ali se criou. Abres a boca uma e outra vez e, quando finalmente o movimento é acompanhado de um som, não é só um mas toda uma sequência - uma sequência de sons que acompanha o abrir e fechar da tua boca, o tapar das mãos com as mangas da camisola, o inspirar e expirar acelerado.
Quero tocar-te. Quero passar a mão por cima dos teus ombros e puxar-te mais para mim. Não o faço para não quebrar a contração do teu corpo - porque sem ela os sons sairiam abafados, soluçados. Puxo um cigarro do teu maço e concentro-me nas tuas palavras, nos sons sequenciados que acompanham o abrir e fechar da tua boca.
As tuas analogias são a melhor forma que tens de te expressares. São a tua contração sonora. Queres que ouça entre palavras, que saiba entender o que deixas por dizer. Falas, alongas-te nas comparações, e nem sempre me é fácil ouvir para além do que me dizes, perceber o que me queres realmente dizer.

domingo, 20 de janeiro de 2013

20 de janeiro de 2013

Está escuro lá fora - é o escuro da noite e o escuro do céu coberto por nuvens escuras.
Avanças pela estrada segurando firmemente o volante, com os ouvidos a sentirem-se agredidos pelo incessante cair da chuva e os olhos a lutarem por ver mais à frente, tentando abstrair-se do vai e vem das escovas do limpa para-brisas constantemente a querer roubar a sua atenção. O esforço de ver mais à frente mantem-nos abertos por demasiado tempo - tanto que a lágrima se torna insuficiente e também as lentes decidem agredir-te os sentidos.
Avanças pela estrada a lutar com a noite, com a chuva, com os sentidos demasiadamente sensíveis, acossados com tantos estímulos. Queres puxar de um cigarro, inspirar com vontade e expirar com força para afastares a nuvem maior pousada no orgão acima da cabeça - aquele com ligação direta ao outro, com o que te fica no peito, no exato sítio em que o cinto o atravessa.
Avanças pela estrada a lutar com o que te ataca do exterior - e com o resto, com que te atacas a ti própria.
Eventualmente chegarás ao destino intacta - pelo menos no que é visível aos olhos dos outros - e amanhã, quando o dia nascer, o sol vai inundar o espaço circundante, mas só esse. Aí, no orgão acima do pescoço, continuará a ser travada uma verdadeira batalha - mais uma, de uma guerra que parece não ter fim.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

17 de janeiro de 2013

(Re)descobres a cada dia os motivos que te fizeram escolher.
Percorres ensonada o caminho até lá, com os dedos a percorrerem os botões à procura da sonoridade adequada ao estado de espírito matinal e os olhos a lutarem ainda com a luminosidade de um novo dia que se te apresenta. Inspiras e expiras, procurando expulsar o sono que ainda te tolda o raciocínio e por vezes te cola à almofada por demasiado tempo.
Recebem-te olhos doces e ansiosos por descobertas que façam o dia valer a pena. Há sorrisos que te contagiam e te mostram, logo pela manhã, que o dia a que te entregas vale a pena por isto.
Geres o tempo na correria do costume, procurando que te acompanhem, procurando acompanhá-los, e deixas-te conquistar pelos pequenos seres ávidos de conhecimento. E de repente, na correria do dia, enquanto procuras manter o total controlo da situação, ouves comentários de uma completa ingenuidade que sem préaviso te arrancam sorrisos e te deliciam por completo. E no silêncio da sala, nos raros momentos de completo silêncio, ouves a insistente repetição de sílabas, a sua junção numa palavra, e paras, silenciosa, com um brilho maior a nascer-te nos olhos e um grito de alegria a sufocar na garganta. Os olhos pequenos levantam-se para ti, à espera de aprovação, e tudo o que consegues é sorrir, com todo o rosto a acompanhar a elevação dos lábios, com uns olhos prestes a transbordar a alegria acumulada. Em cada uma dessas espantosas descobertas sorris para dentro e dizes a ti própria
- É por isto.
É por isso, para assistir esse processo quase mágico, que fizeste esta escolha. Foi para receberes este magnífico prémio, para veres aumentar o número de troféus, para os quereres cada vez maiores.
No caminho de regresso a casa levas um peso maior no peito, transportando-os  e a todas as pequenas conquistas do dia e sorris. Sorris independentemente do botão que pressionas ou da luz que te acompanha. É certo que nem sempre tens força para elevares os lábios num sorriso físico mas ainda assim há um sorriso maior em ti, por dentro, no exato sítio em que o cinto te cruza o peito.
Escolheste pelos truques de magia, para te surpreenderes a ti mesma com cada um que resulta, escolheste pelo sorriso maior que levas em ti no final de cada dia. O que fazes define-te também. Tu és também o que fazes, o que escolheste fazer.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

14 de janeiro de 2013

Quando tudo se esgotar aqui o que irá sobrar em ti?
Tens pesado todos os prós e contras, analisado cada palavra, cada gesto (que procuras visualizar) e tentado perceber o porquê, o como, o para quê. Perguntas-te vezes sem conta se deves avançar. Respiras fundo, tentas ganhar calma e viver com ela - mas essa pessoa não és tu em alguma altura tens de regressar. E regressas, regressas vezes sem conta, mesmo quando tudo o que queres é fugir. Analisas cada detalhe enquanto avanças mas a pergunta ecoa em ti
Quando tudo se esgotar o que irá sobrar em ti?
Tentas fugir à questão. Olhas o teto e no seu branco são projetados todos os anos, todos os momentos, todas as memórias fotográficas do passado comum. Sorris pela união, pela partilha, pelos segredos. Puxas o despertados da prateleira acima da tua cabeça e vês os minutos a passar, os minutos que acabarão por se transformar em horas - em mais horas em que voltas ao que és.
Quando tudo se esgotar aqui o que irá sobrar em ti?
- Volto atrás. Quando tudo se esgotar eu volto atrás, volto ao ponto antes da partida.
Não voltas. Já passaste o ponto sem retorno. Tudo o que disseste, tudo o que deixaste sair do orgão abaixo da cabeça, embora repetidamente analisado pelo outro, já saiu, já foi partilhado - e não, não existe um delete que possas pressionar e é por isso que não há retorno. Por isso, quando tudo se esgotar aqui o que sobrará em ti não será nunca igual ao que tinhas à partida. É um ponto sem retorno.
Abres os olhos a meio da noite, vês projetados todos os anos e mexes-te impacientemente pelos minutos que passam, pelas horas dedicadas. Sabes que não há volta a dar.
Quando tudo se esgotar aqui nada sobrará para ti.

sábado, 12 de janeiro de 2013

12 de janeiro de 2013

De repente tudo se questiona. É como se te tirassem o tapete debaixo dos pés - ou como se pisasses um extraordinariamente suave, tão diferente do áspero a que te tinhas habituado que o seu toque te retrai as entranhas e te acelera o coração. 
E agora? O que farás agora? 
Colocas um pé no tapete áspero de sempre e o outro no novo, no extraordinariamente suave. Os teus pés estão descalços, sem meias, nus. Distribuis bem o peso por ambos os pés, deixas que a planta destes assente sobre os tapetes. Inspiras e expiras enquanto a tua pele se habitua às texturas. Os teus dedos fletem-se e esticam-se repetidamente, tateando o tecido, trazendo no regresso impressões alongadas a transmitir ao órgão lá em cima, no topo de ti. 
O que te oferecem são tapetes diferentes, são tapetes bem distintos. Um não tem a suavidade do outro mas os teus pés, habituados que estão a percorre-lo, talvez a dispensem de bom grado. Não saberás onde pisar e o teu passo seguro dará lugar a uns passinhos leves e hesitantes, bem diferentes da forma a que te habituaste a percorrer a vida. 
Balouças o corpo, com os braços estendidos em direção ao chão, e os teus dedos soltos tocam-te ao de leve na pele enquanto oscilas o peso entre uma perna e outra, um pé e outro, um tapete e outro. Inspiras e expiras, fechas os olhos demoradamente, sentes o coração a bater-te no peito e as fontes latejam-te, obrigando-te a respirar mais alto, com mais força. Oscilas mais uma vez o peso de um pé para o outro, tateando atentamente a superfície por debaixo deles. Abres finalmente os olhos e sorris, ao mesmo tempo que o peito do pé que elevaras no ar se encosta suavemente à perna esticada, enrolando-se ao joelho de forma contorcida. Sorris, com um só pé assente lá em baixo.

domingo, 30 de dezembro de 2012

30 de dezembro de 2012

Fecho a porta, encosto-me a ela ainda com o coração a querer saltar-me do peito, passo a mão pela cara e pouso-a atrás da cabeça entre esta e a porta.
Eu podia habituar-me a isto. Podia mesmo.
Ouço o elevador ainda em movimento, transportando-a de regresso à rua e depois ao carro e depois aos km's que nos separam. Este sorriso idiota que ela me trouxe não se quer desfazer, agarrou-se a mim cheio de vontade.
E eu podia habituar-me a ele. Podia mesmo.
Silêncio. Ouço a porta da rua a bater. Desencosto-me, recomponho-me, circulo descalço pela casa vazia.  Entro na cozinha, encho um copo com água e ao olhar o lava louças  respiro fundo. Os copos do sumo de laranja. Sorrio.
Era só um jantar. Depois o tempo arrastou-se, colámo-nos às cadeiras e depois, com o passar das horas e das milhares de palavras, colámo-nos um ao outro. Trouxe-a comigo. Ou ela é que me trouxe, não sei bem. Fiz os km's a espreitar pelo retrovisor com medo de a perder pelo caminho, o coração a querer saltar-me do peito, a respiração acelerada. Trouxe-a até cá - talvez só por trazer, só por hoje, só por esta noite. Entrou por aqui adentro (já não sei se pela casa se por mim) com um sorriso tímido, uma hesitação, uma ansiedade bem latente no olhar - e nas mãos, escondidas nas mangas da camisola.
Circulo descalço pela casa, ainda com o copo com água na mão direita e encosto-me à ombreita da porta da sala. Olho o sofá, a carpete da sala, as almofadas espalhadas, o teto. Coço a cabeça. 
Avanço para o quarto e sento-me na beira da cama. Pouso o copo no chão.
Que menino que eu sou.
Tenho vontade de me deitar aqui a olhar o teto. Tenho vontade mas não o faço.
És um homem, recompõe-te.
Olho as almofadas vazias. Hesito. Puxo a almofada sem dono para mim, afundo o nariz e inspiro com vontade. Sorrio. Sorrio porque está lá - ou sorrio de mim próprio.
Caramba, podia habituar-me a isto.
Não preciso de me esforçar para sentir as suas pernas enroscadas nas minhas, para me recordar do seu cabelo encostado a mim, enrolado nos meus dedos, do seu sorriso de miúda afinal mulher, afinal cheia de atitude. Sorrio. Julguei-a mal.
Acordei numa cama vazia. A luz a entrar-me pelo quarto adentro. Fechei os olhos, revi a noite, procurei a sua saída mas não a encontrei. Levantei-me, ainda de olhos meio fechados. Pisei as calças antes de pisar o chão.
Ela está aqui.
Estava. Sentada no sofá com os joelhos dobrados e os braços a abraçá-los, os pés descalços e o olhar lá longe, lá ao fundo, na linha do horizonte sobre o mar. Silêncio. Deixei-me ficar a observá-la da entrada, com um sorriso a fugir-me, uma curiosidade maior pelo que teria ela por detrás daquele olhar. Avancei em silêncio, abracei-a a ela, aos seus joelhos e aos seus braços e inspirei junto ao seu pescoço. Enrosquei-me.
Eu podia habituar-me a isso. Eu queria poder habituar-me a isso.
Revejo os minutos e quero-os de volta. Quero-a de volta. Arrancar-lhe sorrisos, gargalhadas até. Fazer dela uma miúda mimada. Bombardeá-la com elogios até que os aceite. Surpreendê-la no decorrer dos seus dias. Enchê-la de vontade de voltar. Trazê-la de volta e deixá-la ficar (não sei se na casa se em mim).
Eu podia habituar-me a tudo isso.
Passo a mão pela cabeça e sorrio, abanando-a. Levanto-me. A vida continua. Até à próxima.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

27 de dezembro de 2012


Estou tremendamente apaixonada por ti. Gosto da tranquilidade que me dás e das surpresas que me trazes. Estou contigo a cada dia e estou cheia de vontade de continuar a estar.
Este foi o ano em que me apaixonei por ti. Este foi o ano em que, ao olhar-te mais uma vez, te olhei de forma diferente e toda eu, cada cantinho de mim, se apaixonou por ti. Eu não gostava de ti, eu vivia contigo apenas porque tinha de ser, mas isso mudou. Mudou tanto!
Hoje eu sei que tu me dás o melhor. Eu posso não o perceber de imediato, mas depois, mais tarde, digiro e faz-me todo o sentido. Cada coisa a seu tempo, no seu devido lugar. Dás-me o que te dou, pagas-me na mesma moeda. Eu sei que ao meu melhor sorriso tu respondes com o melhor que tens para me dar.
Entrei neste ano com vontade de fugir de ti. Não me fazia sentido o que tínhamos e os nossos movimentos pouco coordenados tiravam-me a vontade de continuar. Andávamos ali uma atrás da outra de costas voltadas, empurrando-nos em sentidos opostos e nunca chegávamos a lado nenhum. Em vez de avançar o que eu queria mesmo era recuar uma meia dúzia de anos, voltar atrás, encolher-me no que já conhecia e colocar em repeat. A dada altura, sentada numa cadeira com o sol a aquecer-me demasiado as pernas para além da ganga, alguma coisa mudou em mim, o filtro cinzento que me cobria a vista foi atirado para o outro lado da sala e então comecei a ver. Gradualmente, os meus olhos foram capazes de distinguir as formas e as cores que me rodeavam e então eu percebi. Cá dentro (e dou por mim a pousar a mão no exato sítio) tinha um rosa forte, um rosa forte e brilhante. Este foi-se expandindo, foi crescendo, foi saindo, inundou-me, saltou cá para fora e coloriu-te. Olho em redor e tudo tem tonalidades fortes, tudo brilha.
Em ti soube-me rodear de pessoas que merecem que te partilhe, pessoas de que me orgulho por motivos vários e que me fazem orgulhar-me de mim mesma por ter sabido cativá-las e mantê-las por perto. São também elas que me fazem apaixonar-me mais por ti a cada dia e que me fazem olhar para este ano e ter uma vontade imensa de o comemorar, de o celebrar, celebrando-te.
Este foi o ano em que me apaixonei por ti. Venham mais.

25 de dezembro de 2012

Há dias que ela se senta na mesa do lado sem olhar em redor. Segura a lapiseira amarela na mão direita e escreve com ela no caderno de capa preta de linhas finas pousado nas pernas cruzadas à chinês - apenas. Das poucas vezes em que levanta o olhar para a cidade ao fundo, mordendo a lapiseira amarela, rodando-a pelos lábios entreabertos, consigo ver um brilho no seu olhar - mas um brilho frio. Há alguma coisa de diferente na sua atitude, na forma como se comporta. Não amachuca folhas, não fecha os olhos inspirando fundo para fazer presente o futuro, não olha a cadeira vazia a seu lado. Alguma coisa mudou na forma como se arruma na cadeira, na forma como se enquadra naquele espaço, naquelas pessoas. 
Não pega no telemóvel, não atende chamadas, não procura contactos. Fecha-se ao mundo, fecha-se para ti. Sim, parece-me que se fechou para ti. As crianças passam, a cadeira está vazia, e ela ainda levanta o olhar para as observar ao mesmo tempo que a covinha, tão dela, surge no seu rosto. Mas ela não morde o lábio inferior e não olha a cadeira vazia ao seu lado. Sim, ela deixou de olhar para o espaço vazio em que antes gostaria de te sentar. 
Não sei o que se passou. Na verdade, e apesar de ainda ter amachucado uma folha e de a ter deixado ficar em cima da mesa, eu não tive coragem para ir até lá e pegar na folha de linhas amachucada. Tive medo. Eu criei expectativas! Como espetadora, eu criei expectativas. Eu vi o brilho quente com que observava a cadeira vazia ao seu lado e a forma como fechava os olhos e inspirava com força para que o futuro se tornasse presente. Eu vi-a acreditar! E hoje tive receio, receio de ser confrontada com a mudança, com o porquê da mudança. Ela acreditou - via-se em cada um dos seus gestos - mas a forma como se comportou hoje mostrou-me que não acredita mais e houve algo nos seus olhos, algo semelhante a desapontamento - consigo própria - que me mostrou que esta não fora a primeira vez em que acreditara mas que, fechada ao mundo, ela esperava que fosse a última. Eu própria, sentada na mesa ao lado, desejei com força que esta fosse a última.