domingo, 30 de junho de 2013

30 de junho de 2013

Vais aprender muitas lições. Lamento dizer-to, mas vais aprender ainda mais lições do que aquelas que já aprendeste até agora. Vais aprender lições que te vão custar horas de sono, sorrisos, quilos e também pessoas. Sim, pessoas. E eu sei que ao ouvires isto os teus olhos se encherão de lágrimas e inclinarás a cabeça à direita - como se assim me conseguisses perceber melhor - mas sim, perderás pessoas.
Na vida, e isso tu já aprendeste, não há nada que tu possas julgar eterno. Não há amores que durem para sempre (pelos menos não na sua forma inicial), não há dores que durem para sempre, não há bens materiais que durem para sempre e, talvez tenhas de aprender também, poderão não existir amizades que durem para sempre. Vai doer-te? Sim, vai. Vai doer-te muito. Mas ao fim de algum tempo, quando inspirares, vais perceber que o peito já não te dói tanto e recordar-te-ás de que o que vem também vai - e vice-versa.
Para que os dedos segurem a lapiseira amarela e percorram juntos as linhas finas do caderno preto tu vives muitas vezes acima da realidade. Pisas um chão diferente deste e os teus passos têm um peso que nem sempre é igual - demasiado leves, demasiado pesados. Sentes mais do que outros coisas que não seriam de se sentir e valorizas o que para os outros são insignificâncias. Deixas que te toquem, que te levem às lágrimas, porque para ti tem de ser sempre assim, com todas as emoções à flor da pele. E tens direito a isso. Tens direito a isso e ninguém te poderá dizer o contrário. Mas tens também a obrigação - que os outros também teriam, ainda que não o assumam - de te protegeres. E sim, só a ti poderás cobrar essa proteção. Porque os outros, minha querida, estarão a proteger-se a si mesmos.
Eu sei que o teu coraçãozinho te bate no peito a uma velocidade que um primeiro olhar não permite perceber. Sei que tens a lágrima fácil, o sorriso doce muitas vezes difícil e uns olhos que dizem mais do que tu gostarias de deixar sair. Mas também sabemos que esse teu maldito coração, associado ao chão que só tu pisas - lá mais em cima, sempre lá mais em cima - ainda te trará muitas dores. Uma após a outra temos vindo a tentar descodificá-las, a tentar perceber se és tu que afastas as pessoas ou se é simplesmente a vida a reservar-te o melhor. Sei que às vezes, mesmo que tu não mo digas, te martirizas culpabilizando-te por uma ou outra atitude que poderá ter provocado o caos em que muitas vezes te encontras. Mas, minha querida, só fica quem quer ficar e, mais importante ainda, só deves deixar que fique quem realmente merece poder ficar. E não, não coloques a mão no fogo por ninguém. Reforço: por ninguém. Por mais anos que passem, por mais anos que tenham passado, lembra-te de que nada é eterno.
Portanto recorda-te: muitas lições ainda estão para vir. Lições que te farão chorar e outras também que te farão rir. E o importante será sempre que as consigas desmontar, acomodar, apreender. E que no final das contas continues a saber sorrir. A ser feliz.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

18 de maio de 2005


Agora ela já quase que não dorme em casa.
A pouco e pouco o roupeiro vai ficando vazio, as caixas de sapatos vão saindo, e até os livros, as sebentas, e os cd's, são já apenas uma pequena amostra do que sempre foram. Agora o quarto só é arrumado de dois em dias, e a roupa vai-se amontoando aos pés na cama, num amontoado de calças de ganga, t-shirts, casacos e soutiens sem fim; à porta do quarto ficam à noite as meias e as cuecas desse dia, que no dia seguinte, depois de enfiar o casaco de lã a caminho da casa de banho, enfio no bolso para as colocar no cesto de roupa suja.
À noite deixo-me ficar no computador, teclando com força. E não há ninguém a reclamar do barulho, não há um queixume ensonado. A televisão agora raramente é ligada. E quando me enfio na cama já não há uma luz instável, umas vozes cruzadas. De manhã, quando o telemóvel toca e eu me deixo ficar na cama, se há alguém que me acorda, já não é de dentro, mas alguém que abre a porta e deixa entrar a luz do corredor. A casa de banho agora não é um espaço muito movimentado. Já ninguém me apressa, debatendo-se pela banheira. Quando regresso da escola, a cama continua por fazer e ninguém me colocou a roupa em cima da cama, ninguém fez um montinho com os livros espalhados no chão. Na mesa da cozinha não encontro a tostadeira, porque já não há ninguém que coma tostas.
Quando acordo, de manhã, espreguiço-me e faço aquele hummmm, esfrego os olhos, sorrio. E agora salto da cama e abro os estores. E lá vem o sol. Olho o espelho. E fujo para a banheira. Na verdade, gosto de ter duas camas, gosto de me espojar numa, e dormir noutra, gosto de separar sestas por camas, separar roupa de livros...gosto de ter todo este espaço. E vou adorar retirar uma das camas, ficar com um espaço grande; vou adorar pegar no rolo no Verão e pintar as 3 paredes com uma cor qualquer sem que me levantem objecções. Mas agora, agora que a pouco e pouco vou vendo o quarto a ficar vazio, na verdade também me sinto um pouco vazia. E não há mais aquele entusiasmo do «ela vai-se embora». Não. Sinto uma tristeza aqui dentro, dou por mim a olhar para ela e apetecer-me abraçá-la. E a ficar colada à cadeira. E sentir picos nos olhos. Na verdade acho que evito até falar. Deixo os dias passarem. Caladinha. Fingindo que nada de passa. Na verdade, não me sinto muito feliz. Por ela sim, claro, mas não por mim. É bom vê-la construir a sua vidinha, é bom vê-la sorridente, e entusiasmada com alguma coisa, mas...sinto um vazio tão grande cá dentro...é muito bom vê-la "crescer", construir uma vida a dois, vencer os medos que também eu herdei, mas é tão...fico feliz por ela, a sério que fico, mas ao mesmo tempo dou por mim a negar essa ida, e também a pensar que eu é que queria sair daqui. Acho que é mais difícil ficar que ir, e, construir uma vida a dois...
A minha mãe não diz, mas eu sei. Agora quando nos cruzamos na cozinha, olhamos o chão e ela cora. Não falamos. Não dizemos nada. Mas sei que faz tudo para a agradar. Já dei por ela a arrumar-me o quarto. Na verdade, tudo isto vai ficar demasiado calmo, demasiado silencioso.
Nunca lhe disse, mas gosto muito dela.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

17 de junho de 2013

Os teus olhos não se fecham. Os teus olhos não se fecham e as tuas mãos decidem dar-lhes imagens com que se possam entreter. Os dedos, rápidos, percorrem o ecrã arrastando-as - direita, esquerda; direita, esquerda - trazendo até ti pedaços do que devias esquecer.
O tempo está a passar - tic, tac, tic, tac - mas os teus olhos permanecem abertos. Os teus olhos permanecem abertos e os pedaços do que devias esquecer continuam aqui. Talvez seja por eles que os teus olhos se mantêm abertos à medida que o tic, tac, tic, tac te acelera a respiração, te faz tremer as mãos  - e te faz rogar pragas ao que te mantém acordada.
Tu devias esquecer. Tu JÁ devias ter esquecido. E, no entanto, as horas passam mas os teus olhos permanecem abertos. Sentes a ansiedade a apoderar-se de ti à medida que as palavras te ficam presas na garganta. Queres calá-las - dizê-las para quê? - e esforças-te para o fazeres. Talvez por isso os olhos demorem tanto a fecharem-se. Talvez a pressão que sentes a escorregar-te por entre as pestanas sejam as palavras que trazes em ti, as palavras que as imagens que as tuas mãos trazem até ti te fazem querer dizer. Talvez os olhos não se fechem porque o teu peito bate depressa de mais, bate com força a mais - tum tum, tum tum.
Fechas os olhos à força e resistes às pálpebras que novamente se querem afastar. Poisas as mãos unidas sobre a barriga. Viras-te de lado e rodeias a almofada com um só braço. Encostas a barriga ao colchão e envolves a almofada com ambos os braços. Inspiras e expiras com força - e com ruído. Sentas-te e atiras a almofada para longe.
Pensas no que precisas. Pensas no que desejas para ti. Dizes a ti própria que não podes ter o que queres. Inspiras e expiras com as pestanas a debaterem-se com lágrimas mais pesadas. Inspiras e expiras procurando acalmar o peito, acalmar a respiração, acalmar a ansiedade, acalmar o que te mantém os olhos abertos, acalmar o que trazes em ti.
O tempo está a passar - o tic tac, as folhas do calendário, as estações do ano - mas os teus olhos continuam por fechar. Continuas a calar as palavras antes que estas te saiam pela garganta ou pelas pontas dos dedos.
Fechas os olhos. Fechas os olhos com força. Fechas os olhos convicta de que os deves manter assim. Com força. Com força até que deixem de resistir. Com força até que se mantenham fechados por si próprios. Com força. Até que as imagens lhes apareçam a partir do interior para te aconchegar o peito - e eles queiram permanecer fechados para as conservarem em si.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

14 de junho de 2013

Não é o estatuto que te dão. O problema é o estatuto que tu atribuis. Sempre foi.
Acreditas desde o princípio. Acreditas por inteiro. Queres acreditar. Fazes por isso.
Olhas num só sentido, vês uma única direção. E avanças. Avanças com tudo - com o peito a bombear-te o sangue depressa pelas veias e todo o corpo num frenesim.
Avanças com tudo. Dás tudo e mais um bocadinho. Dedicas-te. Estás presente. Falas e escutas. Planeias - ainda que em silêncio. Não esqueces. Não falhas. Ou falhas por excesso de zelo. E, a pouco e pouco, sentes-te vazia. O que sai não é reposto. Não há equilíbrio entre o que dás e o que recebes.
O estatuto que atribuis é sempre tão mais valioso. E o problema não é o que te dão a ti: o problema é o que tu dás aos outros.


terça-feira, 11 de junho de 2013

11 de junho de 2013

Ondas. Como ondas dentro de ti. Ondas que podem demorar a vir. Ondas que podem demorar a ir. Mas ondas - que vão e que vêm a um ritmo próprio.
Devagarinho, em cada parte de ti, sentes que se está a afastar. A começar do centro. Vai-se afastando devagarinho, escorrendo a partir do centro para as extremidades, percorrendo-te os membros, afastando-se de cada vez que inspiras. De cada vez que expiras - como se assim a empurrasses para longe. 
E de repente, quando menos esperas, surpreende-te um novo embate. 
Viraste-lhe as costas. Não te protegeste o suficiente. E as ondas vão. Mas as ondas também voltam.
Falta-te o ar enquanto a sentes em ti. À volta. Por dentro. Às voltas. O corpo a contorcer-se. Os pés a procurarem o chão para te impulsionarem para cima, em direção à superfície. As mãos a tatearem em redor procurando algo a que se agarrarem - algo a que te agarrares. 
Mas falta-te o chão. Falta-te o chão e falta-te o ar. Faltam-te as forças. E, devagarinho, os braços que antes se agitavam em redor movem-se com mais calma. Parecem ambientar-se. Ou parecem derrotados. Talvez acabes por inspirar com tudo em teu redor. Talvez inspires o que te rodeia e o ar te continue a faltar. 
As ondas vão. As ondas voltam. Sustem a respiração por mais um bocadinho. Liberta o ar devagarinho - e a medo. Vai libertando o ar. Uma bolha. Outra bolha. 
O que vem também vai. Aguarda pelo momento certo. Aguarda pelo momento certo e quando chegar não o percas. Calca com força o chão a teus pés, impulsiona o corpo, emerge. E não deixes que a próxima onda te volte a surpreender.


quinta-feira, 30 de maio de 2013

30 de maio de 2013

Nas alturas em que cerras os lábios para não deixares sair nomes feios aos que te querem bem questionas-te porque nada mais parece sair. Perguntas-te, ainda que a medo, porque te é tão difícil dizeres em voz alta tudo o que trazes em ti. Cerras os lábios repetidamente e em situações diversas.
Procuras encerrar em ti muito do que trazes, parte do que és feita. Receias as reações, temes a crítica. E procuras conhecer o porquê. O porquê do medo, do receio, da vergonha. Da falta de segurança, da dúvida sobre a validade do que pensas, queres e és.
E assim, sentada nesta cadeira onde o sol te aquece as pernas, uma pergunta acende a luz da sala escura. De repente consegues ver.Ver e ouvir. Situações diversas em que a tua opinião foi criticada, olhada e comentada como absurda, momentos em que o que tu desejavas foi totalmente ignorado, subtraído todo o seu valor. E a coexistência em que, finalmente, deixaste de existir. Porque quando se anula o que pensam, desejam e sentem as pessoas simplesmente não existem mais. São corpos. Corpos vazios à disposição - ainda que sem ela.
Hoje reaprendes a querer, a sentir, a dizer. Mais do que isso: hoje aprendes a afirmar com certeza - a certeza de que o teu direito a fazê-lo é igual ao dos outros. É válido. És igualmente válida.
Por isso solta os lábios - ainda que devagarinho - e diz sem receio o que vens guardando só para ti.

domingo, 26 de maio de 2013

26 de maio de 2013

Este é o momento em que ainda te podem pedir que fiques. Na verdade, este é o momento em que, para ficares, tu precisarias que to pedissem.
O coração volta, a pouco e pouco, a bater-te mais depressa no peito mas, de cada vez que o seu batimento acelera, os teus olhos têm de parar. Têm  de permanecer abertos. Sabes que quando deixares que a pálpebra superior oscile, quando te permitires pestanejar, as lágrimas vão escorregar-te devagarinho pelo rosto e o teu lábio inferior, escapando-se à habitual mordida, ficará ali a oscilar, tremendo ligeiramente. Tentarás explicar(-te) o porquê dos olhos molhados mas, à medida que o fizeres, um peso maior crescer-te-á no peito.
Cerras os punhos com força e, de olhos fechados, revês as imagens que deverias deixar ir. A dor no peito a lembrar-te que o sangue, para correr mais depressa arrastando tudo à sua passagem, obriga o coração a um esforço suplementar. E que isso dói. E, no entanto, o coração a bater-te mais depressa no peito diz-te que estás quase pronta - e tu queres dizê-lo também. Queres dizê-lo para que te digam que fiques. Queres dizê-lo para que te peçam que atires a vida ao ar para a apanhares lá mais à frente, lá mais longe, lá onde tiver que ser.
O que não (te) consegues explicar é o porquê de quereres ficar, é o porquê de cerrares os punhos em vez de os abrires bem abertos e os agitares no ar - assim, exatamente assim como fizeram contigo.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

13 de maio de 2013

Sentada na mesa ao meu lado, de olhos fechados e com o rosto iluminado pelo sol, ela parece conter a respiração.
Pousou há pouco tempo o caderno preto de linhas finas e a lapiseira amarela sobre as pernas cruzadas à chinês e, quando o fez, fê-lo com um expirar exagerado, um sinal de missão cumprida. Depois abriu a mala brilhante - aquela, que condiz com os sapatos - puxou devagarinho o fio dos phones, ligou-o ao telemóvel, colocou-os com cuidado nos ouvidos, cruzou as pernas daquela forma contorcida e fechou os olhos.
Olhando-a assim, com as palmas das mãos voltadas para o sol, pergunto-me se medita ou se, de olhos fechados, contará devagarinho até 10 - ou outro, maior - procurando acalmar-se ou ganhar coragem para qualquer outro (talvez grande) feito.
Há algo na forma como se esconde aqui, dia após dia, ocupando sozinha uma mesa com várias cadeiras, escapando-se aos olhares diretos, que me faz observá-la com uma atenção redobrada. Procuro pequenos detalhes que denunciem do que é feita, o (por)que tanto escreve naquele caderno, com aquela lapiseira, porque se esconde em si mesma. Que voltas terá dado à vida - ou se terão sido as partidas que esta lhe pregou - a fazê-la assim.
À medida que o sol vai descendo sobre a cidade, completando a sua travessia de um lado ao outro, deixo-me ficar aqui, agitando suavemente o copo de pé alto que seguro na mão direita e espero, como de tantas outras vezes, que volte a pegar no seu caderno e que, depois de o olhar atentamente, arranque pela raiz as páginas escrevinhadas, amarrotando-as e colocando-as em cima da mesa. Mas talvez hoje, como das últimas vezes, as páginas se mantenham intactas, como se tudo o que escreve sejam certezas convictas de que não se quer desfazer.
E depois, depois de tanto a observar, sou eu que cedo, levantando-me e deixando-a, também eu, sozinha naquela mesa em que sempre se senta.

sábado, 11 de maio de 2013

11 de maio de 2013

A dor de cabeça que tens mais não é do que a outra, que trazes no peito, a partir-se em bocadinhos e a minar-te todas as partes desse corpo pequeno. 
É uma tensão enorme, um latejar na fonte direita, uma dor intermitente alimentada pelo bater do coração. Talvez se ele parar, talvez se ele for capaz de abrandar, a dor se torne suportável. Talvez se aliviares a pressão excessiva que existe aí dentro, talvez se parares de resistir e a deixares sair-te pelas mãos e pelos pés, pelos olhos, pela boca, talvez esse peso que trazes em ti se vá também. Talvez seja disso que precises. Esmurrar e pontapear aquilo em que em tempos acreditaste. Gritar bem alto, com um brilho frio no olhar,  que te queres desfazer de tudo isso e rasgar em pedaços pequenos as imagens de sorrisos falsos. Chorar, de maxilares cerrados, os erros cometidos - assim, uns atrás dos outros, assim, afinal tão iguais uns aos outros.
Talvez queiras puxar para fora as gavetas que julgaste arrumadas e atirar ao ar, ou atirar janela fora, cada um dos elementos que em tempos te pareceram arrumados. Ou a gaveta inteira.
Atira a gaveta inteira. Atira.
Quando atirares a gaveta inteira, quando a arrancares de ti, o sangue vai pulsar-te mais devagar pelo corpo, as fontes vão parar de latejar e essa dor de cabeça - ou essa dor pelo corpo todo - vai desligar-se imediatamente.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

8 de maio de 2013

Ela não te diz, nunca te dirá. Mas a verdade é que à noite, quando abre a cama e se enfia lá dentro puxando bem para cima o edredão e certificando-se que o relógio pousado lá mais ao fundo não perturbará o seu sono, coloca-se de lado, bem na beirinha da cama, ajeita a almofada e fecha os olhos. E depois, devagarinho, o seu braço estica-se para o espaço vazio a seu lado e a sua mão vai subindo e descendo, afagando o lençol, e os seus pés, na continuidade das pernas enviesadas na cama, vão-se esfregando um no outro como se nos teus. Os olhos permanecem fechados e ela vai-se fechando também, encerrando mais fundo o que traz em si. Sabe que é assim que deve ser, que é o esperado. 
Agarra a almofada com força, vira-se e revira-se e assim te expulsa, te arranca do espaço vazio a seu lado. Quer que seja para sempre mas já o esperou demasiadas vezes - e todos os dias, ao poisar a cabeça na almofada, vê frustradas as suas expectativas.
Mas isto, o que traz em si, ela nunca te dirá. Não o diz a si própria. Sabe que é assim que deve ser, que é o silêncio que esperas dela.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

28 de abril de 2013

A sensação é sempre a mesma: em qualquer lugar a que vás tudo te parece bem, tudo te parece melhor. É o ar das pessoas, a forma como se movimentam pela cidade, como se deixam ficar sobre a relva dos parques e como o frio parece não lhes chegar. Alimentas-te de uma adrenalina que cresce a cada passada e queres ver mais, absorver mais, conhecer mais.
Consultas os mapas coloridos na parede - ou o outro, que transportas no bolso do casaco - e deixas que o teu dedo passeie pelas linhas. Fascina-te o facto de todos os caminhos irem dar a qualquer lado e a organização no movimento - parar à direita, circular à esquerda - e em tudo o resto - atuar no espaço limitado, registar o valor da gorjeta, ver espetáculos que têm início mesmo à hora marcada. 
Admiras a capacidade de valorizar o património, a forma como conseguem que puxes da carteira e pagues um bilhete para ver coisas que no sítio de onde vens não te custam nada - e que ainda assim tu (e milhares de pessoas) as vejas com gosto e com vontade de repetir.
Circulas pelos corredores cheios de comida e os teus olhos brilham com tamanha variedade. Queres comer todos os iogurtes, beber todos os sumos e experimentar todas as refeições preparadas (ou quase) que se alinham em teu redor. Abres as portas só para veres os rótulos, só para te certificares que o "V" em tantas embalagens está realmente correto. Maravilhas-te com lojas que têm como nome o preço de todos os artigos e queres ter mais do que uma mala para os poderes levar contigo.
As ruas, apinhadas de gente a qualquer hora do dia, são mantidas limpas por rostos que não se veem e em cada esquina há indicações para que não te percas. E então deambulas: circulas (querendo fazê-lo) como um local, seguindo apressada quando toda a gente o faz e parando onde todos param, virando copos e largando sorrisos soltos que te vêm de dentro. Avanças por avançar, avanças para depois voltares só pelo gosto de caminhares aqui, de veres tudo o que te rodeia e tudo o que se mexe. Avanças só para te cruzares novamente com o verde, ainda que isso signifique atravessares-te no caminho de corredores de fim do dia, só para te poderes agachar e ver os roedores de rabo grande a atravessar a vedação e a virem comer da tua mão - sim, da tua mão!
Admiras-te como as palavras te saem da boca e pela forma como rapidamente te moldas aos ritmos e hábitos e como consegues não ser notada, camuflada quase na perfeição.
Queres encher-te com as cores, os cheios e os sabores e levá-los de volta contigo até que os voltes a sentir, até à próxima vez em que te fundires a esta cidade e a viveres em cada um dos teus passos. Por isso vês nascer o sol deitada na cama, através dessa janela sem estores e deixas que se ponha enquanto te deixas ficar deitada na relva, com o casaco quente de inverno a proteger-te os ossos do frio, a gola-carapuço a envolver-te a cabeça e a mola apertada junto ao pescoço. Vais percorrer as ruas por entre gargalhadas, como se algo mais te corresse nas veias - e não corre - sentindo o vento gelado no rosto e afundando mais as mãos nos bolsos. Não vais disparar, não vais registar o que te envolve - mas aí dentro vais guardar o momento em que atravessas a ponte e olhas em redor, rodopiando, e o momento em que o relógio alto alinha os ponteiros e bate as doze badaladas e do outro lado do rio, a cada badalada, a cor das luzes se altera e se mantem até que uma nova badalada lhe indica a mudança, a substituição, até que ao final das doze badaladas as luzes param e a cidade retoma o seu ritmo como se nada de mágico ali se tivesse passado.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

24 de abril de 2013

Se há uns meses te dissessem tu não acreditarias - não assim, não aqui, não agora. E, no entanto, trocam-se as voltas, trocam-se os percursos, e aqui estás tu outra vez.
Há um sol diferente e o que trazes em ti não é igual também. A postura, a forma como respiras enquanto esperas, não é a mesma. Há uma calma maior, uma tranquilidade acrescida que te vem de para onde vais. Talvez preferisses a ansiedade a remexer-te as entranhas e a bater-te mais forte no peito - mas bem, diferente não é mau: ainda há um coração a bombear-te o sangue pelas veias e a fazer-te querer mais do que o que tens.

domingo, 21 de abril de 2013

21 de abril de 2013

Para e escuta. Escuta que ela hoje tem muito para te dizer. 
Aqui, onde se une ao rio aos teus pés, onde o som te embala, para e escuta este som que vai e que vem, para te dizer que tudo é assim: tudo vai, tudo vem, tudo volta a ir. Às vezes é preciso parar para ver, para observar com atenção esse movimento incessante.
E o que vês só pode ser visto à sua luz. Esta luz que é dela e que não há igual em parte alguma. Esta é a luz que te dá, que partilha contigo sem contrapartidas. A luz que reflete na pedra do chão e que de novo vem até ti. A luz que recebes em duplicado. Recebe-a bem, guarda-a bem, conserva-a em ti. Mais logo, quando descer sobre a água lá mais ao fundo, quando a luz se for aqui, terás sempre mais em ti - um brilho quente a aquecer-te, a iluminar-te até que amanhã a luz se voltará a erguer, a brilhar aqui, a refletir aqui, a incidir duplamente em ti. Esta luz que te chega pelo olhar, que te aquece a pele, que te ilumina por dentro para te dizer que tudo é assim: a luz vem, a luz vai, a luz volta.
Que lições te dá pelos sentidos, que lições te traz quando tu queres ver, quando queres ouvir, quando deixas que chegue até ti.
E lá em baixo, lá mais abaixo, o rio continua a tocar-lhe devagarinho, embalando-a e embalando-te suavemente, cheio de um carinho que parece não ter fim.

terça-feira, 16 de abril de 2013

16 de abril de 2013

Sabe-te a pouco e o que te dão não chega para que te baste.
Dás. Dás muito. Dás mais um bocadinho. Dás sem fim. Mas aí dentro, aí num cantinho recondido, talvez dês para que deem, talvez dês para receberes - um bocadinho, só um bocadinho, que um bocadinho basta.
Mas o que te dão não chega para te aliviar o peso que trazes em ti. O que te dão não aconchega, não cria um encosto confortável em que apeteça ficar. 
Aperta-se o nó. O nó que te estanca as entranhas, que te estanca o sangue no interior. Aperta-se em vez de se aliviar um pouco. Adensa-se pela tensão do interior. Mas às vezes, em momentos mais frios do dia, a tensão é tão grande que o nó, as pontas do nó, se mexem ligeiramente, ameaçando soltar-se, cedendo à pressão. E, nesses momentos, há pequenas gotas que se soltam. Uma atrás da outra - assim, devagarinho. Inspiras e expiras com vontade. Inspiras e expiras com vontade - e talvez com a esperança de que ao encheres-te de ar aumentes a pressão e o nó não aguente. Talvez precises que se solte, que se desfaça. Talvez assim se alivie o peso que trazes em ti. Já que o que te dão não chega para que te baste.

terça-feira, 9 de abril de 2013

9 de abril de 2013



(banda sonora para a leitura)

Sentada de pernas esticadas sobre a mesa, as costas encostadas à almofada, uma madeixa de cabelo a ser enrolada na ponta do dedo indicador, entre esse e o polegar. Inspiras e, ao expirares, abres o livro que tens pousado sobre as pernas. 
Lês palavra atrás de palavra, linha atrás de linha, com as páginas a passarem depressa. Focas as letras, num esforço consciente para que o teu olhar não se levante, para que os teus olhos não foquem a gaveta aberta que te ocupa parte do campo visual. Voltas atrás repetidas vezes, com a atenção dispersa entre o livro pousado nas tuas pernas e a gaveta aberta que consegues ver através do canto do teu olho esquerdo.
Abres mais os olhos para de seguida os semicerrares, procurando focar mais as letras, diminuir o campo de visão. Mantens-te assim por minutos que parecem demorar horas, com a pele enrugada à volta dos olhos e a expressão alterada pelo esforço.
A gaveta aberta que consegues ver pelo canto do olho cria-te um formigueiro nas pernas e nos braços - e um maior aí dentro, a correr-te pelas veias. Procuras ignorá-la. Procuras empurrá-la para longe - como se os teus olhos tivessem braços e esses fossem fortes o suficiente para empurrar para longe uma gaveta como aquela. Pestanejas com força, pestanejas para humedecer a vista e para clarear a visão. Dobras as pernas e abraças os joelhos e os teus olhos continuam pousados no livro, a cara virada para baixo - num esforço tão consciente que quase sentes duas mãos a amparar-te a cabeça para que se mantenha imóvel.
Inspiras e expiras. Atiras o livro para o lado e puxas de um cigarro. Sentada à chinês, com o corpo a balançar ligeiramente para a frente e para trás, observas de frente a gaveta aberta. 
Já a tentaste fechar antes. Usaste toda a tua força para a empurrares para dentro, para a colocares no seu devido lugar.  Inclinaste o tronco, com os braços esticados à frente do peito e as tuas pernas esticadas lá mais atrás, alongando-se numa diagonal forte. Cerraste os maxilares e empurraste com toda a tua força mas a gaveta, de tão cheia, quase não saiu do mesmo lugar. Tentaste e voltaste a tentar e paraste apenas quando, de tanto tentar, o sangue te correu mais depressa nas veias e te gerou um formigueiro difícil de conter. Fingiste não a ver. Leste mais umas páginas, fumaste mais uns cigarros, mas a visão da gaveta aberta não deixou que o teu olhar focasse as letras e o teu cérebro acompanhasse as ideias. 
Deixas-te ficar aí sentada a inalar e a exalar o fumo de mais um cigarro, olhando a gaveta aberta e procurando definir uma estratégia para a colocares no sítio. Levantas-te, mãos na cintura, pernas abertas à largura da bacia. Inclinas ligeiramente a cabeça enquanto observas o conteúdo da gaveta. É o caos que contém que não te permite colocá-la no sítio. Quando todas as partes encaixarem uma nas outras conseguirás empurrá-la, apenas com um dedo, para o seu lugar. E por isso puxas a gaveta, suportas o seu peso até ao chão e despejas todo o seu conteúdo. Remexes. Pegas em cada uma das partes e depositas toda a tua atenção, arrancando sorrisos e outras coisas aí de dentro com cada uma. Colocas dentro da gaveta elemento atrás de elemento, procurando acomodá-los a todos. Abanas a cabeça e despeja-los novamente. Recomeças. Remexes uma e outra vez e sentes o formigueiro a apoderar-se mais de ti de cada vez que tens de recomeçar. Sacodes os braços no ar, procurando atirá-lo para longe. Prossegues. Sabes que poderás ter de o fazer uma e outra vez mas que, quando todos os elementos encaixarem uns nos outros, poderás finalmente fechar a gaveta. Talvez a possas fechar para sempre ou talvez, ao mexeres numa das partes, lances novamente o caos e tenhas de recomeçar, remexendo cada uma das partes como se da primeira vez se tratasse, para que tudo encaixe no devido lugar. E depois, quando a gaveta estiver realmente fechada, podes voltar a sentar-te aí, com as pernas esticadas sobre a mesa, as costas confortavelmente encostadas às almofadas e o cabelo a ser enrolado à volta do indicador, ao mesmo tempo que os teus olhos, focados nas palavras, devoram uma atrás de outra nas páginas que não param de passar.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

3 de abril de 2013



(banda sonora para a leitura)

Cada um acredita no que quer. Essa é uma forma de proteção. Ou de ilusão.
Em cada um dos dias, em cada um dos momentos do dia, de acordo com o que trazemos em nós, cada um acredita no que quer.
Reformula as verdades com que contacta - até com as que lhe caem em cima - e acredita apenas no que quer. Acreditar no que se quer pode ser ver mais. Acreditar no que se quer pode ser ver menos. Ou pode simplesmente ser não se querer acreditar. Ponto final.
Avança-se. Um dia. Dois dias. Acredita-se noutra coisa qualquer. Cria-se uma verdade diferente em que acreditar com todas as forças - para ver de mais, para ver de menos. Pensa-se que se partilha a verdade - mas se cada um traz em si uma verdade diferente em que acreditar, como se pode partilhar de uma só verdade?
Constrói-se sobre a verdade. Constrói-se e descontrói-se uma e outra vez. Hoje assim, amanhã assado. Constrói- se com o que nos dão, descontrói-se quando nos tiram. Só a verdade, a que trazemos em nós, não muda. Podemos querer vê-la. Podemos não a querer mais. Mas, a que trazemos em nós, permanece (quase) intacta. Para ilusão ou para proteção, cada um acredita no que quer.

domingo, 31 de março de 2013

31 de março de 2013

Há novos hábitos que se criam quando tudo à nossa volta é diferente.
Aprendemos a viver mais para nós, mais connosco mesmos. Não dependemos tanto, não damos tanto. Fecham-se as portas depressa para que nada saia, nada entre. Aprendemos a ser por nós, a fazer para nós e por nós - sabendo que aqui essa é a força maior. Depois olhamos em redor, agarramo-nos ao que temos em redor, e valorizamos as pessoas. São as que se escolhem, as que fazem parte, a rede que nos suporta. São como que uma família.
Criam-se novos hábitos quando quem está à nossa volta é diferente.
Aprendemos novas línguas, novas regras. Respeitamos, com receio, as ordens dadas pelos bonequinhos verde e vermelho, cumprimos a preceito os hábitos da sociedade a que queremos pertencer.
Depois juntamos a família à volta da mesa e recuperamos os hábitos que deixámos lá longe, à distância. Abre-se uma garrafa de vinho - tinto - e inala-se com vontade o cheiro das carnes, dos enchidos. Negoceia-se quem trará na mala, na próxima viagem, o bacalhau para comer com as batatas - e vá, se as saudades apertarem, até com as couves. Salivamos ao pensar num peixe fresquinho grelhado no carvão.
Criam-se novos hábitos quando a família se constrói.
No computador, à hora do jantar há invariavelmente uma língua que é a nossa, as notícias de um país que é o nosso, de uma crise que - ainda que lá longe - temos ainda como nossa. Acompanha-se a atualidade como se ainda fizéssemos parte dela. Não se sabe se voltaremos a ser parte integrante, não sabemos sequer se queremos ou se só a crise não deixa que façamos. Torce-se mais pela seleção e pelo clube do coração em cafés em que a língua que falamos está em clara minoria.
Correm os dias com o hábito. Quer-se mais. Vive-se mais. Talvez se sofra menos - é que com o hábito tudo custa menos. Gosta-se até. Gosta-se mesmo.
E depois ouvimos um
- então até amanhã, Zé!
dito assim, com estas palavrinhas, e que nos transporta milhares de quilómetros,  nos arranca um sorriso e nos aquece - nem que por um bocadinho - o coração.

sexta-feira, 29 de março de 2013

- marco: 2000 visitas -

. obrigada .

(agora por favor matem-me a curiosidade e digam-me lá quem é que me anda a ler mundo fora)



quinta-feira, 28 de março de 2013

28 de março de 2013

Estava a entrar em sobreaquecimento - e tu sabes.
As pás não paravam de girar cá dentro, tentando arrefecer os circuitos. A informação passava mais devagar, aos soluços. E o barulho das pás - sempre a girarem, a girarem - não parava por um segundo. Um ruído constante que me entorpecia o pensamento.
Estava em sobreaquecimento e não conseguia travá-lo. Queria interrompê-lo. Queria desligar-me da corrente, cessar o ruído no topo de mim - e em todo o lado.
A informação a circular, o ruído, a temperatura. A respiração interrompida, presa na garganta.
As pás a girarem, o ruído. As pás a girarem, o ruído. As pás a girarem. O ruído.
Encosto-me à parede. A boca a abrir e a fechar. A mão no peito. Os olhos muito abertos e brilhantes - brilhantes e quase molhados. Olho-te com a boca muito aberta e a mão a apertar-me o peito como se, se apertasse mais fundo, pudesse arrancar todos os circuitos e assim cessar o sobreaquecimento.
Olhas-me de olhos brilhantes. Olhas-me com tudo o que trazes aí. Olhas-me nos olhos. Olhas o brilho dos meus olhos, a boca muito aberta, a mão que me aperta o peito, as pernas que começam a ceder. Aproximas-te a medo. Aproximas-te de brilho nos olhos e boca a abrir e a fechar cheia de palavras que não deixas sair. Aproximas-te e levantas o braço na minha direção. A mão na minha direção. Esticas mais um bocadinho, tocando-me quase. A tua mão a centímetros de mim, a centímetros de tudo o que querias sossegar. E depois, lentamente, com os olhos fixos nos meus e a boca ainda a abrir e fechar, esticas-te e desligas-me da corrente.
Falta-me o ar. Arrepanho a camisola e encosto-me mais à parede. Todo o corpo encostado à parede. Falta-me o ar. Falta-me o ar e a força nas pernas. Olho-te de olhos muito abertos e sem ar. Olho-te de olhos muito abertos e com linhas finas a escorregarem, a libertarem-se finalmente. Escorrego. Escorrego devagarinho em direção ao chão. Escorrego devagarinho em direção ao frio do chão para me deitar, para deixar que a energia abandone cada um dos circuitos, para esperar que as pás cessem todo o seu movimento, para esperar que o ruído sossegue no topo de mim - e em todos os outros lugares.
Deixo-me ficar. Deixo-me ficar a sentir as linhas a traçarem-se no meu rosto - finas, fininhas - e a respiração - primeiro rápida - a recuperar o seu ritmo, a sua calma, à medida que o sangue me volta a circular pelas veias no seu ritmo regular. Deixo-me ficar a ver-te, ainda sem conseguir controlar os movimentos do meu corpo. Abro e fecho a boca para te falar mas tudo o que trago cá dentro é silêncio.

segunda-feira, 25 de março de 2013

25 de março de 2013


(banda sonora para a leitura)

Se é para ir vai com tudo.
Sempre foi assim, sem meias medidas.
Aproximaste-te da beira e saltaste a pés juntos. Não olhaste em redor, não viste as marcas da profundidade, não espreitaste lá para baixo. Saltaste a pés juntos para o que havia de ser, sem saberes o que era, sem saberes o que querias que fosse.
Saltaste a pés juntos, de nariz tapado, respiração suspensa. Não inspiraste, não expiraste e até os olhos mantiveste fechados enquanto o teu corpo permanecia suspenso.
Saltaste a pés juntos cheia de convicção em direção ao vazio. Deixaste-te ficar, corpo esticado, em direção ao fundo. Abriste os olhos e o que viste não chegou para te tranquilizar. Não havia fim à vista, não havia uma beira a que te pudesses apoiar. Soltaste o nariz, soltaste os braços e as pernas. Soltaste a respiração. Abriste muito os olhos, procurando ver mais à frente, mais longe. E mexeste-te. Mexeste-te cheia de pressa, com o sangue a circular mais depressa nas veias, aquecendo-te a pele. Abriste e fechaste braços e pernas, afastando-te em direção a parte incerta. E subiste, subiste em direção à tona, subiste até que os teus olhos encontrassem a luz e as palmas das tuas mãos encontrassem a beira para, de uma só vez, ergueres todo o corpo e te soltares da água. 
Arrefece-te a pele ao parares. Pontas dos dedos enrugadas, pernas que te tremem lá em baixo. Sempre foi assim, sem meias medidas.
Saltas a pés juntos uma e outra vez. Porque se é para ir então que seja com tudo. Uma e outra vez.
E a cada salto a tua pele vai-se tornando mais resistente à temperatura. Fria ou quente. Movimentas-te com mais pressa, mais medo, mais vontade. Crias uma camada protetora mas sabes que vais, que não ficas, que não deixas de saltar. Uma e outra vez. Saltas convicta. Saltas com tudo.
Porque, se é para ires, então vais com tudo. Em tudo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

18 de março de 2013

(banda sonora)

De cada vez que os teus pés pisam o chão calcas bem fundo mais uma questão. Uma atrás da outra.
Questão, questão.
Questão, questão.
Inspiras e expiras de abdominal contraído - e o órgão que trazes ao peito apertado.
Corres. Corres para longe ou corres em redor. Passada atrás de passada.
Questão, questão.
Questão, questão.
Calcas com força o chão e corres para longe antes que te possam apanhar.
Questão, questão.
Questão, questão.
Inspiras e expiras e perguntas em silêncio ao orgão no topo de ti quando poderás parar.
Questão, questão.
Cada um dos teus passos continua a depositá-las mais abaixo, mais fundo, esperando enterrá-las bem - longe de onde estarás na próxima passada.
Abrandas. Mentalmente, vejo-te abrandar. Dentro das calças pretas que se te colam à pele vejo as tuas pernas, de repente tão esguias, a abrandarem. Os teus joelhos continuam a fletirem-se, um após o outro, mas demoradamente, como se por momentos pairasses apenas, por segundos infinitos em que um dos teus pés já se levantou mas o outro ainda não tocou o chão. Moves-te como que em câmara lenta. Um joelho. Um pé. Outro joelho. Outro pé.
Questão.
Questão.
Questão.
Questão.
Observo-te em silêncio nessa corrida de compasso lento, demorado. Observo os teus olhos a molharem-te todo o rosto e o punho da camisola a enxugá-lo depressa - para que eu não veja, para que tu própria não o vejas. Enxugas com pressa e com algo mais. É o brilhozinho frio que acompanha cada passada que dás com força, assentando no chão, com todo o teu peso, cada uma das questões que trazes em ti.
E continuas.
Questão, questão.
Questão, questão.
Um pé atrás do outro, passada após passada, calcas bem fundo no chão tudo de que te queres livrar.
Paras. De repente paras. Apoias as mãos nos joelhos, inspirando e expirando apressadamente, com o órgão que trazes ao peito a bater descompassadamente. Inspiras e expiras a custo. Respiras alívio. E, de pernas bem esticadas, levas também ao chão as palmas das tuas mãos, esperando que ao esfregá-las no chão ajudes a enterrar mais fundo tudo o que a custo calcaste já com os pés.

terça-feira, 12 de março de 2013

12 de março de 2013

Quantas das tuas palavras são silêncios demorados em que ninguém parece reparar?
Os olhos expressivos que procuram substituir a voz. A lapiseira na ponta dos dedos a prolongar o silêncio sonoro. Os dias que se arrastam sem que uma palavra seja trocada.
Eu reparo. Eu reparo no silêncio, em cada um deles. Eu reparo nos silêncios e procuro dar-lhes voz. Analiso cada um deles à luz da história que é a tua. Por cada silêncio teu eu crio uma palavra.
E vou somando palavras. Um conjunto infinito delas. Uma sequência sem critério. Ligam-se pouco umas às outras, apenas aqui e ali. E formam uma sequência aleatória que nos atira para a frente e para trás, opondo-se muitas vezes umas às outras e seguindo numa ordem desordenada que se traduz em silêncios demorados e sem nexo, capazes de nos afastarem da origem.

sábado, 9 de março de 2013

7 de março de 2013


(banda sonora para a leitura - há que encontrar o ritmo)

Uma espécie de jogo das cadeiras. Cada vez que trocarmos de lugar trocamos de personagem, falamos de nós próprios na terceira pessoa do singular. Colocamos todas as questões.
Salto para o outro lugar, cruzo as pernas à chinês, levo o vidro à boca e solto uma gargalhada isolada quando o meu olhar se cruza com o teu do outro lado da mesa. Questiono. Atiro perguntas que só posso fazer quando não sou parte da questão. Vejo os teus olhos abrirem-se mais de espanto a cada uma mas encolho os ombros, de sorriso posto, perante a inevitabilidade da resposta - e a perspetiva de não haver lugar a ressentimentos agora que eu não sou eu.
Troca. Sou eu outra vez. Respondo por mim quando tu já és afinal elemento externo.
Troca.
Troca.
Troca.
Troca.
Pausas momentâneas para substituir vidros, para acender cigarros. Não há perguntas sem resposta nem tempo para as ponderar. Eliminam-se os filtros agora que voltámos a ser outras pessoas que não estas.
Troca.
Troca.
Troca.
Troca até que as perguntas se esgotem. Troca até que tudo tenha sido esmiuçado.
Troca.
Troca.
Troca até que estejamos prontos para retomar o nosso lugar normal. Troca até que, depois de tudo dito, possamos prosseguir do ponto em que estamos.
Troca.
Troca até à exaustão.
Troca.
Troca até que caiamos nas cadeiras absolutamente estafados e com uma gargalhada conjunta e demorada capaz de arrumar cada resposta no devido lugar.

quarta-feira, 6 de março de 2013

5 de março de 2013

 
(banda sonora para a leitura)

Sentada na cadeira do gabinete branco enfrentas a medo o fantasma maior em ti. Inspiras e expiras a custo, forçando o ar a passar pelo túnel cada vez mais estreito que te liga ao exterior.
Fitas os olhos no topo da bata branca enquanto o ouves a desmanchar todos os castelos assombrados que ergueras em tão pouco tempo. Ouves as explicações e mentalmente vais traçando cruzes por cima de cada uma das fases que ele queimou. Revês o passado e procuras ligar as palavras a fases diferentes. Procuras localizar no tempo cada uma das etapas em que ele poderia ter parado, em que ele poderia ter evitado todas as sombras que trazemos connosco, em que ele poderia ter evitado tudo o que nos trouxe, em que ele poderia conquistar tempo aqui. Eliminas mentalmente, uma a uma, cada etapa que fez por ignorar, e por cada etapa uma imagem mais desfeita, mais pequena, mais minguada de si.
Sentamo-nos nesta cadeira vezes sem conta para que connosco seja diferente. Erguemos castelos assombrados que nos lembram as histórias que trazemos em nós e esperamos, esperamos com força e com uma vontade tamanha, que alguém nos ajude a desmanchá-los.

segunda-feira, 4 de março de 2013

3 de março de 2013

(banda sonora para a leitura)

Puxo-te para baixo para que não me leves contigo. Tens a minha mão segura na tua e levas-me contigo em cada uma das tuas subidas. É por isso que te puxo. Quero os meus pés bem assentes na terra e caminhar seguro em cada um dos meus passos.
Já andei lá por cima. Já vi as vistas, já sofri as vertigens, já caí lá em baixo. A queda foi tão grande que me pareceu demorada: segundos infinitos em que revi cada momento, em que ouvi de novo cada uma das palavras, em que revi cada um dos sinais de aviso que havia ignorado. Vezes sem conta. Revi cada momento à medida que um nó maior se formava em mim. E de repente o silêncio, o escuro em redor. Tudo o que há é uma dor maior em mim. Estou em choque. Tenho um nó na garganta, um nó no estômago - e suponho que também nos olhos, nos ouvidos. Nada entra, nada sai. Quero levantar-me. Quero comandar o meu corpo, ordenar-lhe que se recomponha, que se levante inteiro e caminhe para longe. Mas estou esmagado por este peso no peito e o que tenho não chega para o mover. Eu sei que se me deixar ficar ele acabará por passar.
Seguras a minha mão na tua e caminhamos juntos lado a lado. Mas há, entre elas, entre as nossas mãos, nas nossas mãos, uma tensão maior. O meu braço está a ser puxado, todo eu estou a ser puxado para cima, numa diagonal ascendente. E puxo-te. Puxo-te porque trago ainda um peso maior no peito, porque de cada vez que penso em subir todo o meu corpo se contrái ao pensar na descida.
Puxo-te para baixo para que não me leves contigo, para que me deixes caminhar seguro em cada um dos meus passos - para que não haja nunca uma dor maior em ti e um peso que te esmague o peito.