segunda-feira, 5 de maio de 2014

28 de abril de 2014

Até ao próximo ciclo*
Primeiro o embate de se estar sozinha. Sozinha. So-zi-nha. O sofá torna-se o melhor amigo, as séries vão passando na televisão, episódio após episódio e passam-se dias – vários – sem que se saia de casa. A comida desce a custo e os quilos vão descendo depressa na balança – não um a um, antes aos pares, antes vários de uma só vez. Até que, passado algum tempo, passamos a sair – muito.
Ganha-se gosto aos horários próprios, às horas que não pertencem a mais ninguém. Olha-se mais para dentro, com uma maior profundidade. Vemo-nos melhor do que antes, melhor do que outros. Conquista-se um espaço próprio e a forma de vivermos bem com todo o tempo, todo o espaço, tudo o que é agora apenas nosso.
E depois cansamo-nos – pelo menos parcialmente. Gostamos de tudo quanto fazemos mas há momentos que gostaríamos de poder partilhar. Um bocadinho hoje, um bocadinho do amanhã que gostaríamos de viver com alguém ao lado, alguém com quem partilhar a felicidade que temos em nós, alguém com quem a fazer crescer.
A pessoa aparece. Primeiro as borboletas na barriga, os risos tontos, a descoberta constante do outro, de um “nós”, de se estar apaixonada. Mas às vezes o medo a bater-nos à porta, a calar os sorrisos, a travar os beijos, a criar barreiras. Tememos a dependência, tememos um possível embate de se voltar a ficar sozinha. Colocamos travões para evitar embates. Provocamos embates por tanto medo de repetir erros do passado.
Ciclos. São ciclos que provocam medo. Mas refletindo com calma – se se encontrar calma – a mudança é isso também: medo, conquista, estabilização. Até ao próximo ciclo. Há que aproveitar.
*Texto publicado no blog A Vida em Posts, no Brasil, a 28 de abril de 2014

segunda-feira, 31 de março de 2014

27 de março de 2014

Agarra-me bem*
E quando eu quiser fugir, por favor não me deixes ir. Quando me assustar, quando sentir uma ameaça a aproximar-se - podendo ser real ou não - não me deixes ir. 
O meu primeiro impulso vai ser fugir-te. O meu impulso será sempre afastar-me. Vou querer fugir ao conflito, à dor antecipada, ao nó que se me forma instantaneamente no peito. Às lágrimas que se equilibram entre as pestanas inferiores enublando-me a vista.
As minhas pernas vão agitar-se, vou querer fumar um cigarro enquanto procuro acalmar o ímpeto de simplesmente me levantar e sair sem trocar uma única palavra que possa explicar (minimamente) o que me vai cá dentro. Vou querer afastar-me. Vou querer afastar-te. Poderei até querer ser um pouco cruel. Não cruel, sincera. Posso querer ser sincera a um nível que só neste estado me arrisco a ser - e que por isso mal conheces ainda. Posso querer espetar-te uma faca no peito e rodá-la ainda, uma e outra vez. Posso querer meter-te medo mostrando-te o pior de mim - só para que te prepares, só para que saibas com o que podes contar e não mais te desiludas.
Talvez depois eu consiga respirar fundo. Inspirar, segurar, expirar. Inspirar, segurar, expirar. Mas continuarei a fugir. A afastar-te com palavras e gestos. 
Agarra-me bem nessa altura. Não me deixes fugir-te. Agarra-me para que saiba que é aqui que devo estar, para que saiba que é aqui que me queres. Porque em alturas assim eu vou deixar de saber. Colocarei em causa cada gesto, cada palavra. Duvidarei do presente - quanto mais do futuro. Mas por favor agarra-me bem, deixa que me esconda - mas em ti. Eventualmente eu acabarei por falar, por expulsar sob a forma de palavras as dores que me pesam no peito. Mas até lá, enquanto procuro apenas proteger-me, por favor não me deixes ir.
*Texto publicado no blog A Vida em Posts, no Brasil, a 31 de março de 2014

terça-feira, 25 de março de 2014

23 de março de 2014

Que fosse a primeira. Ao tropeçar em pedaços do passado alheio, apercebo-me do quanto gostaria de ser a primeira. 
Os sorrisos, as quase lágrimas de felicidade, os apertos sucessivos. Por vezes queria que nunca tivessem existido, que os partilhássemos, nós, pela primeira vez. Que todos os planos feitos a dois fossem inéditos, que os nossos olhos nunca antes tivessem pousado lá mais à frente, que os espaços que agora partilhamos nunca antes tivessem sido ocupados.
E, no entanto, o passado está em nós. Há um rasto que nos segue. Há rostos. Amores e desamores. Dores imensas a encerrarem momentos felizes - aqueles, que julgáramos serem para sempre.
E hoje, quando nos olhamos olhos nos olhos e fazemos planos para o futuro, por vezes questiono-me:
- Será realmente diferente?
ou
- Por que será diferente desta vez?
Se nada tivesse falhado antes seria fácil não questionar. Assim, fica mais difícil.
Ainda que a resposta esteja em mim, ainda que saiba o que é diferente, há bocadinhos de mim que por vezes questionam
- Não foi sempre diferente?
Então prefiro não olhar para trás. Não tropeçar em passado algum. Quase fingir que ele nunca existiu. (Ainda que a sua existência por vezes me arranhe, me crie um nó no estômago e uma vontade grande de fugir para onde não me possa nunca magoar).

Então quase que agradeço que o passado que por vezes se atravessa no nosso caminho sem ser convidado seja o meu - porque se fosse outro talvez eu não o soubesse gerir. Gosto demasiado do lugar que ocupo - prefiro pensar que sempre foi meu.

terça-feira, 18 de março de 2014

15 de março de 2014

Os silêncios soam-me a distância. Cada minuto que decorre sem uma troca de palavras - qualquer uma - soa a distância que se inicia, que se alastra a cada minuto. E eu lido mal com distâncias.
Os silêncios deixam-me zangada. Deixam-me insegura. Deixam-me magoada. Os silêncios deixam-me em (quase) lágrimas que eu não sou capaz de segurar, tão pouco de deixar cair. Os silêncios deixam-me num misto de emoções à flor da pele que se misturam, se entranham e me baralham.
A música a tocar no rádio não interrompe o silêncio. Caminha, ali no topo dele, como que a cavalgá-lo, a dirigi-lo. Coexiste para me lembrar que o silêncio permanece, que o contraste entre o que ouço e o resto é grande. Existe para me lembrar que para além dela - independentemente do volume em que a ouça - há todo um silêncio a rodear-me, a isolar-me como que numa bolha de sabão - mas das que descem (não das que sobem) em direção a um sítio escuro.
As luzes que vão passando por mim depressa - se pudesse passariam ainda mais depressa - como que a puxarem consigo todos os momentos cheios de luz, de sorrisos brilhantes. E eu a afastar-me mais, cada vez mais, para um sítio escuro, de silêncios. A minha boca, abrindo-se e fechando-se, e as minhas mãos a desejarem um cigarro que pudessem segurar entre o indicador e o médio, aproximando-o da boca, permitindo-me inalar o fumo. A minha boca abrindo-se, procurando que as palavras me saíssem - mas um nó formado a meio caminho a impedir a saída.
Os minutos vão passando. Total silêncio para além da música. E a distância, essa, a crescer a olhos vistos. A mão a afastar-se. As pernas a retesarem-se. Os ombros contraídos e os olhos muito abertos, quase esbugalhados, a procurarem ver lá mais à frente.
Abro e fecho a boca repetidamente. Quase pego na lapiseira amarela para que as palavras me escorreguem pelas pontas dos dedos até às linhas do moleskine preto que sempre me acompanha. Mas depois, ao abrir a boca, as palavras saem-me finalmente. Assim meio para dentro, de forma pouco audível. Que depois tenho de repetir. Saem-me aos atropelos, aos empurrões. Empurram medos escondidos cá dentro. Afastam os planos para o futuro. Saem-me como pedras atiradas. Medos que se pronunciam em voz alta. E a distância ainda um fosso entre nós. Os silêncios forçados. Os olhos molhados. O abdominal a contrair-se repetidamente, prendendo o choro que a tensão em mim sempre provoca.
O meu problema são as palavras. Soltas. Em demasia. A falta delas, os silêncios, são distância de mim mesma.

terça-feira, 11 de março de 2014

7 de março de 2014

Aos (quase) fantasmas do passado*
Quero dizer-te que a notícia me deixou imensamente triste. Primeiro em choque, surpreendida.  Depois apenas triste.
Não é uma notícia que se espere receber. Ali, no meu local de trabalho, entre pares. Não consegui segurar a minha mão antes que esta me cobrisse a boca na tentativa (vã) de conter o espanto. Tão pouco consegui segurar as minhas pernas na mesma posição e por isso me vi escorregar em direção ao chão com a parede a guiar-me o caminho. Não sei já se as lágrimas me escorregaram pelo rosto ao mesmo tempo que o meu corpo desceu pela parede ou se só depois. Sei, apenas, que a notícia me apanhou de surpresa – pelo menos naquela altura. E que enquanto acendia um cigarro a chama tremia na extensão das minhas mãos.
Conversa puxa conversa, vi-me a revisitar o passado. Ao descrever comportamentos do passado vi os fantasmas a aproximarem-se a passos largos de mim. Revisitei espaços de que me despedi faz tempo. Assisti, sentada num canto em silêncio, a monólogos travados noite(s) dentro. Revivi o desespero que me crescia no peito e me bloqueava as ações. E então todos os pequenos passos que fiz nesta corrida para longe do passado pareceram parcialmente anulados à medida que os fantasmas vaguearam ligeiros por aqui.
As palavras foram-se seguindo umas às outras – sem pedir licença, sem atender ao presente e ao quão distante este é do passado. Talvez eu lhe quisesse gritar que se mantivesse longe, que aqui não há lugar a fantasmas do passado. Talvez eu devesse ter afirmado o meu direito de não ter a vida invadida por (mais) fantasmas do passado. Podia tê-lo feito. Tê-lo-ia feito se o passado me tivesse batido à porta em vez de se ter limitado a entrar sem pedir licença. Ter-lhe-ia chamado egoísta e recordado conversas em que afirmei a distância que me separa do que foi – e do que não mais voltará a ser. Teria anulado toda a minha sensibilidade – aquela que antes me diziam ter em excesso – para colocar os fantasmas no seu devido lugar: um sítio escuro. E distante.
Mas depois, quando me voltei a erguer – embora ainda apoiada à parede – as peças foram-se compondo. Assim, uma sobre a outra, encostando-se numa sequência lógica. E então a surpresa foi substituída. Substituída por algo diferente. Como que apenas uma constatação de algo que afinal talvez se esperasse – parcialmente. Talvez esta constatação ajude a encaixar peças do passado, a arrumá-las no sítio certo. Talvez explique a queda de algumas que pareciam empurradas por uma qualquer corrente de ar. Ainda assim, há constatações que não se desejam fazer na vida. Espera-se apenas que estejamos certos nas escolhas que fazemos, nas escolhas que os outros fazem. Não se espera – ou (eu) não espero – ver outros falhar. Entristecem-me também as falhas alheias. Mas acontecendo, e previsto em parte, há por vezes o impulso de dizer
- Eu bem avisei.
Palavras que não me chegam a sair porque a razão não mais me faz falta. Porque preferia não a ter. Não nisto.
A razão traz-me questões de responsabilidade. Questão após questão. As noites tornam-se maiores, os sonos mais agitados. Um mau estar em forma de ponto de interrogação a navegar-me no pensamento, a questionar-me
- E se?
Ou
- Devia?
Mas fecho os olhos com força. Inspiro profundamente. Inspiro o presente, reavivo os sorrisos e os planos, reaqueço o coração. Estou em paz. Estou em paz com quase tudo o que a vida me foi trazendo – e com grande parte do que me levou. Talvez não o diga vezes suficientes e por isso faço agora questão de repetir: estou em paz com tudo o que foi. Digo também: estou imensamente feliz com o que é. Espero que também tu, em breve, o consigas.
*Texto publicado no blog A Vida em Posts, no Brasil, a 10 de março de 2014 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

22 de fevereiro de 2014

Desligar o sistema*
Às vezes isto é tudo o que precisas: desligar.
Precisas de desligar o sistema. Precisas de desligar o teu sistema.
No final de um dia difícil, de um dia em que a pressão se transforma em lágrimas e a falta da nicotina te faz morder o lábio com mais força, talvez precises de desligar o sistema.
Entrar no carro e conduzir «ao sem destino», como se não houvesse sítio nenhum a que chegar, como se cada um dos quilómetros percorridos te fizesse caminhar para mais longe das responsabilidades. Como se as lágrimas a caírem rosto abaixo, enublando-te a vista, significassem de facto que a pressão se te aliviava no peito, nas têmporas – no corpo todo.
Talvez não vás tão longe. Talvez desças apenas a avenida em que trabalhas e te aproximes do rio. Estacionas o carro o mais perto possível da margem, antes da ciclovia, e chegas o banco para trás, afundando-te enquanto dizes em silêncio a ti própria que agora podes desfazer-te um bocadinho. Despes o profissionalismo, libertas-te do papel de adulto a que a profissão te obriga, e deixas-te chorar um bocadinho. Talvez seques depois as lágrimas e pegues num cigarro para fumares lá fora, sentada mesmo junto ao rio, com ele a ir e a vir aos teus pés. Não irás fumar dentro do carro – não mais, não agora que estes momentos são a exceção e não a regra, não agora que o carro se livrou do cheiro dos teus cigarros – mas apenas na rua, com o vento a agitar-te o cabelo enquanto te mantens sentada de forma contorcida a observar o fumo a afastar-se depressa de ti.
Ao fim de semana dirás que queres dormir a manhã toda. No entanto, o teu sistema, tão habituado aos comandos externos, iniciar-se-á pontualmente à mesma hora, obrigando-te a agitares-te na cama. Estás cansada. Estás cansada e a precisar de desligar o sistema. Mas as horas passam e continuas alerta, com todos os sentidos despertos para mais um dia que se inicia – e tu a sentires que nunca terminou o anterior.
Precisas de desligar o sistema. Precisas de desligar o teu sistema.
E então à tarde, depois do almoço e de ouvires que estás agitada, deitas-te no sofá para ver um episódio de uma série – esperando conseguir vê-lo até ao fim pela primeira vez esta semana. Aninhas-te, com a cabeça na almofada e as pernas em colo alheio, e começas realmente a vê-lo. Mas, mais uma vez, e provando que precisas de desligar o sistema, ele finalmente obedece-te e os teus olhos, esses, fecham-se finalmente. Dormes. Dormes um bocadinho. E depois um bocadinho maior. Acordas com a sensação de um reiniciar de sistema bem sucedido, com o pensamento fresco e os dedos soltos. E o texto que deverias fazer sai-te afinal em vinte e seis minutos.
Precisavas mesmo de desligar o sistema. Ainda bem que o fizeste.
*Texto publicado no blog A Vida em Posts, no Brasil, a 24 de fevereiro de 2014 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

14 de fevereiro de 2014

Coisas que gostaria de (lhe) dizer:*
Há uma série de coisas que gostaria de lhe dizer. Agora, enquanto a vejo avançar sozinha por entre as portas de embarque, há uma enorme quantidade de coisas que gostaria de lhe dizer.
Gostaria de a proteger do que está para vir. Queria salvaguardá-la, não deixar que se magoasse mais. Queria dizer-lhe para não se empenhar tanto, para não dar tanto de si. Hoje, que a observo à distância, que já pisei os mesmos passos que agora se propõe a pisar, gostaria de a poder alertar para o que aí vem.
Queria dizer-lhe, em primeiro lugar, para recuar no tempo: um, dois, três ou quatro meses até. Queria dizer-lhe que o fizesse para que o seu coração pudesse continuar a bater-lhe tranquilo no peito, para que o ar não lhe fugisse e as suas ideias não estivessem sempre tão longe. Gostaria de a alertar para os terríveis meses de tristeza, de saudade, a que agora irá dar início. Gostaria de a poder alertar para o sentimento de perda, ainda para mais injustificada, que durante muito tempo a dominará.
As certezas que tem são as certezas de que precisa: a certeza de se saber sempre acompanhada, ainda que à distância; a certeza de se saber compreendida, ainda que considerada exagerada; a certeza de poder ter certezas – que mais tarde, garantidamente, verá como tendo sido tão incertas.
Indo tarde, e por isso não conseguindo evitar o embarque, gostaria de lhe pedir que ouvisse, mas que ouvisse uma segunda vez e que fizesse uma leitura objetiva do que ouve em vez de a adequar ao que gostaria de ouvir. É certo que o discurso pouco claro que lhe é dirigido não lhe facilitará a tarefa, mas é também verdade que é sua obrigação – e de mais ninguém – filtrar o que até a si chega. Ocupará espaços que não lhe pertencerão e que não lhe foram, nunca, destinados. Existirá em si um sentimento de pertença, é verdade, mas posso garantir-lhe – agora, à distância – que será de pouca dura. Brevemente se sentirá excluída, quase mesmo eliminada. E passarão meses, vários, até que a perda se acomode num cantinho do coração e este lhe volte a bater calmamente no peito.
Gostaria de lhe dizer que tudo passa. Agora, aqui, um ano depois, gostaria de olhar para trás e de lhe dizer que descanse, que sinta a dor que houver para sentir, que daqui a um ano tudo estará bem e que a vida – a sua, a dos outros – terá dado uma grande, grande volta. Uma volta capaz de mudar vidas. Para (muito) melhor.
*Texto publicado no blog A Vida em Posts, no Brasil, a 17 de fevereiro de 2014 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

10 de fevereiro de 2014

Laços que ficam
Vai ser sempre assim. São laços que ficam para sempre.
Não importa se acordamos com o despertador ao domingo para percorrermos a cidade debaixo de chuva, com o país sob alerta vermelho e a ameaça de ventos muito fortes. Não importa se ficamos até tarde num dia que vai já extraordinariamente longo, se o cansaço nos pesa nos ombros, na cabeça, no humor. Importa, isso sim, que iniciámos o dia a sorrir, com um quentinho no coração, e o terminamos à gargalhada, com as memórias avivadas e a certeza de nos sabermos um dia crianças. Importa que te sabes sempre acompanhada pelos teus. Pelos de há muitos anos, pelos de há alguns, por outros mais recentes.
Importa que quando se sentam à volta da mesa de um dos mais movimentados locais lisboetas, por entre gargalhadas e conversas mais sérias, enquanto atualizam o estado da vida de cada um, continuam a ser exatamente os mesmos: os que ficam, os que nunca deixaram de estar, os que imaginas no teu futuro. Observas as diferenças – as físicas e as outras – e valorizas cada uma das mudanças que os viste empreender, cheios de coragem e de um medo da mudança que parecem não ter. Acreditas que poderias até ficar só a observá-los, a vê-los comunicarem uns com os outros naquele jeito especial de cada um, naquelas suas formas tão diferentes de serem – mas que se completam e te completam tão bem. Importa que muito na tua vida mudou, importa que houve pessoas a deixarem-na mas que tu ficaste, que eles ficaram, que continuam todos no teu caminho. Importa que quando se levantam e seguem cada um a sua direção, te sentas no carro e dizes em voz alta
- Gosto mesmo deles.
Importa que em ocasiões festivas se cruzam, se observam atentamente e trocam abraços que dizem tanto. Importa que te conhecem como poucas pessoas, que te topam a léguas, que se preocupam contigo. Importa que te viram crescer – e continuar, ainda assim, a ser tão pequenina. Importa que detêm memórias capazes de complementarem as tuas e que têm a capacidade, que vais sentindo como rara, de te avivar as lembranças de quem já não está – e tu gostarias que estivesse. Importa que partilharam dores comuns de uma forma muito própria. Não importa se apontam os teus defeitos mais depressa do que te identificam as qualidades, importa sim que o fazem para te alertar, para que não te esqueças, para que não afastes por isso de ti quem queres que fique. Conhecem as dinâmicas familiares e têm a capacidade de te identificar como amorosa, mas complicada, reconhecendo-te traços que não perderás nunca – talvez porque com eles te mantenhas confortável e garantas a dose de mimo que de outra forma te poderia escapar. Importa que procurem preencher, como que com pequenos remendos, o espaço deixado vago por quem partiu e não mais voltará. Deixas-te ficar a observá-los enquanto comunicam, enquanto se riem à gargalhada e fazem reconstituições de situações passadas e questionas-te silenciosamente como seria? – e depois calas as questões e rendes-te ao como é das coisas que são e te fazem feliz.
E sabes, cheia de certezas que raramente te dominam, que alguns laços – como estes – ficarão para sempre. Será sempre assim.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

6 de fevereiro de 2014

Como se não te chegasse o dia de trabalho. As crianças, os pais das crianças, os problemas com o servidor,  as reuniões que se prolongam. Como se não te chegasse o cansaço das noites pouco dormidas, o peso da responsabilidade.
Sais tarde e a precisar de uma sesta, a precisar de um bocadinho para ti no sofá. Mas é já tarde demais. Enfias-te no carro e abres a porta alheia com a chave há muito confiada - como se faz sempre com os que são nossos. Deixas-te ficar a observá-lo enquanto, com os olhos muito abertos,  vê os desenhos animados do final de tarde. Fazem escavações arqueológicas em busca do T-Rex, travam batalhas do jogo do galo, molham-se com a água do banho que lhe devias dar. Quando se sentam todos à volta da mesa não consegues evitar reagir a uma provocação e quando dás por ti a tua voz está já a elevar-se demasiado alto, num tom demasiado agressivo, erguendo defesas que entre vocês não seriam necessárias. Incrédula, ouves o convite para sair. E sais. Sais mesmo. Com bater de portas, juras internas de não mais voltar e algo a molhar-te a cara, algo a enublar-te a vista. Sentas-te ao volante e a única coisa em que consegues pensar é no cigarro que precisas de fumar - nisso e na certeza de que não irás voltar. Amaldiçoas o dia em que, sem saber porquê, decidiste deixar de fumar - ou "reduzir,  apenas reduzir". Abres e fechas a boca como se inalasses e exalasses o fumo. Pegas no telefone à procura de um aconchego mas há algo em ti a querer empurrá-lo para longe. Longe. Mais ainda quando a preocupação se mistura com uma atividade contrastante e comentada - repetidamente comentada.
Procuras resolver um problema mas há outro a crescer-te no peito. Um problema com cabeça,  tronco e membros que sentes invadir-te a vida,  destruindo o sítio tranquilo e seguro a que julgavas ter chegado.
Pões a tocar aquela música - aquela, banda sonora de tantos momentos - e procuras deitar pela ponta dos dedos toda a ansiedade. Sentes o corpo - e o coração - a contrair-se sobre si mesmo, a fechar-se para o exterior, mantendo tudo o resto para além dele. Cerras os lábios com força, como ainda há poucos dias sentiras necessidade de fazer, e abres muito os olhos para que as tuas pestanas não empurrem as gotinhas pequeninas que se empoleiram no cantio dos teus olhos. E queres ferir. Atacar para ferir - não matar, magoar apenas um bocadinho. Sentes a respiração a alterar-se pelo esforço do que procuras não dizer, pelas acusações sentidas que tentas guardar em ti. E questionas-te, baixinho, até quando te manterás nas graças.
E agora que te encontras tão imensamente desapontada - agora que sabes ter perdido qualquer pinga de racionalidade - queres pedir mais tempo para ti, fechar novamente as janelas e as portas que antes abriras de par em par, eliminar de ti qualquer quentinho no peito,  apagar o registo de planos e os desejos que ias já tomando como teus. Queres dizer o que tantas outras vezes quiseste dizer- Não me assustesOu- Não faças com que te queira fugir.
Porque talvez agora o queiras um bocadinho.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

27 de janeiro de 2014

banda(s) sonora(s) da vida.*
Há um friozinho sorrateiro a entrar devagarinho. Enquanto a música te enche o quarto – num tom suave – e te movimentas no vai e vem de quem tem uma casa de que cuidar, sentes que te está a crescer no peito e a ocupar um espaço que não lhe pertence mais. Um friozinho na barriga, um rubor na face, uns olhos de repente quase humedecidos.
A banda sonora de momentos com sabor a doce. A banda sonora de quando, deitados lado a lado, os corpos nus entrelaçados sob o edredão, ela se deixou ficar a ler mais um livro enquanto ele usava os seus dedos dos pés para marcar o ritmo nas pernas dela. Talvez ela não se recorde mais do livro que lia mas a banda sonora – memória auditiva – continua associada à outra, fotográfica, em si sempre tão persistente.
Associado aos olhos quase humedecidos, um sorriso que ela guardará sempre para as histórias quase felizes, para as histórias-felizes-por-pouco-tempo que ela julgara serem para sempre.
E a música continua, faixa após faixa. A dado momento ela terá pousado o que transportava, abandonado os afazeres, ter-se-á deitado sobre a cama e olhado o teto, primeiro, para logo fechar os olhos e cerrar com força os lábios perante as memórias que lhe apertam ainda o peito. De olhos fechados recordará os planos, silenciosos, que fizera, a felicidade estampada no rosto de quem julga ter encontrado o amor para a vida, a ansiedade pelo olhar atento e o aconchego há tanto conhecido. Lembrar-se-á de se deixar ficar estendida na cama, observando a noite a cair lá fora, querendo (com muita força) que esta seja manchada de branco. Acredito que se lembre até da música a ser abafada pelo som da água a correr, de observar as gotas e o vapor a acumularem-se de encontro às portas de vidro, escondendo-o para além delas.
Depois, quando as faixas se esgotarem, pousará ao seu lado o telemóvel que antes agarrara com as duas mãos e deixar-se-á ficar a recordar as bandas sonoras da vida, as que mantém consigo, percebendo que as deveria colocar nas gavetas a que pertencem e mantê-las por lá, fechadas a 7 chaves.

*Texto publicado no blog A Vida em Posts, no Brasil, a 27 de janeiro de 2014

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

6 de janeiro de 2014

Erros*
Com o passar do tempo percebi que o meu maior erro foi ter-te deixado escorregar-me das mãos. Quando me pediste que te agarrasse, e eu disse já o fazer, menti. Não menti. Agarrava-te. Aí dentro. Segundo tu me dizias, disseste, e sentias. Mas não te agarrava por vontade. As coisas aconteceram. Tu apareceste, enfiada num conjunto infinito de palavras, que veio, direitinho, cá dentro. E cativaste-me. A menina doce. E confusa. Desequilibrada. E então escorregaste-me. Escorregaste para mim. Não devagarinho, depressa. Para esconderes o teu rosto contra mim, inspirares-me, abraçares-me. E para que te segurasse. E quando me dizias Não fujas e eu te perguntava Ficas comigo?, queria agarrar-te. Mas não queria que me agarrasses. A tua presença doce, e silenciosa, tinha o poder de me circunscrever àquele espaço, ao teu espaço. A ti. E se eu gostava…Mas assustava-me. As lembranças de experiências antigas que em dois dias me caíram em cima. E tu que me quiseste perguntar Porquê? mas nunca o fizeste. Eu não deixei. E da mesma forma que me escorregaste, que escorregaste para mim, não devagarinho, depressa, eu escorreguei para longe de ti. E não mais me lembrei. Deixei-te ir. E vi-te especada à minha espera. À espera do telefonema, da mensagem, do e-mail. E deixei-me ficar a ver-te. Como te vi, sentada de frente para mim, ou ao meu lado, com as nossas pernas entrelaçadas, e o teu sorriso doce, o teu nariz engraçado, os teus olhos brilhantes e os teus humm derretidos no meu pescoço. E as saudades que no princípio de tudo senti, foram-se. Esmaguei-as. Por medos. Por fantasmas do passado.
Hoje, sentei-me num banco de jardim, num banco do jardim a que me deverias ter levado um dia, não fosse eu ter-te escorregado. E fiquei a observar uma criança, de cabelos castanhos claros, com pequenas molas naturais nas pontas, que se elevavam dos ombros para cima.
- Nári, anda cá!
Nári…Nári…Nári…Nári! Nári…Nári e David. Os dois filhos que tu me disseste desejares. Nári. E então ela correu em direcção a ti. E só aí me apercebi da tua presença. Descontraída. Sentada com as pernas à chinês, como sempre gostaste. O cabelo preso à frente com um gancho. Um caderno sobre as pernas. Uma caneta que se passeava pelos teus dedos. A Nári levantou os olhos, e olhou-me de frente. Tu viraste-te. E estagnaste. Paralisaste. Nem um piscar de olhos. Depois levantaste-te. Adivinhei a tua respiração. E caminhaste, descalça, até a mim. O teu olhar pousado no chão. A relva verde. Os blocos de cimento. A Nári correu atrás de ti, e abraçou-te as pernas. E então olhaste-me, de frente, enquanto eu ganhava coragem para me levantar. E depois disseste, fria
- Olá. Há quanto tempo…Esta é a Nári, a minha filha.
E o teu olhar frio pousado em mim. Espadas. Vidros. Pedras. Castigos antigos que não me pudeste inflingir.
Hoje percebi que o meu maior erro foi ter-te deixado escorregar-me das mãos.
*Texto publicado no blog A Vida em Posts, no Brasil, a 6 de janeiro de 2014

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

- 2013 -

Alguns números em jeito de resumo das Palavras Soltas de 2013:

Em 2012 publiquei 18 textos no meu blog. Em 2013 publiquei 79.

Em 2013 escrevi pela primeira vez para o P3, 4 crónicas. Fica a nota, com um sorriso, de que foi mais difícil encontrar uma fotografia publicável do que ver a primeira crónica aprovada - e a fotografia é ainda assim muito má.
Em 2013 as minhas palavras atravessaram o oceano até ao Brasil, numa colaboração semanal com o blog A Vida em Posts

A 29 de março de 2013 o meu blog atingiu as 2000 visitas. Hoje, 9 meses depois, tem mais de 6000, de vários países onde nunca coloquei os pés.


Em 2013 as Palavras Soltas continuaram a completar-me. A vossa presença também. 

Em 2014 façam mais barulho por aqui, deixem mais palavras vossas, destaquem frases ou excertos dos textos. Façam-se ouvir.

Obrigada por todas as leituras atentas.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

29 de dezembro de 2013

Palavras.*
Às vezes acho que um dia terei de escolher. Escolher entre a vida e isto. Entre a vida e as palavras a caírem depressa das minhas pontas dos dedos.
Habituei-me a esconder-me aqui. A esconder-me ou a criar aqui a vida que queria ter. Habituei-me a viver amores em palavras, a vivenciar situações escritas. Habituei-me até a escrever palavras molhadas – de um molhado com sabor a sal. Por anos e anos, as palavras foram o que de melhor tive. Quando me fugiram fiquei sozinha a viver o dia a dia.
Quando eu precisei elas voltaram. Não quando precisei, um pouco mais tarde. Mas vieram, não me falharam. Alimentadas por palavras alheias que devorava em vários livros, elas foram-se formando novamente em mim. Palavra após palavra. Com elas construí mais – mais à frente, em maior quantidade, com maior intensidade. Construí e desconstruí mundos. Vivi paixões que de uma outra forma teriam passado. Mastiguei palavras de situações vividas, dando-lhes um novo ar, um novo fôlego. E a pairar sobre mim sempre o medo – o medo de que se fossem outra vez, que se fossem para sempre.
Quando a vida se endireita, quando entra em rotina, elas sempre me fogem. Sinto-as constrangidas pela realidade, por quem as rodeia. Sinto-as a encolherem-se no tempo que escasseia, a partilharem (de forma mal distribuída) a atenção. Não são elas, sou eu. Sinto-me a encolher sem elas. Porque percebo, hoje, que sem elas sou igual a todos os outros. Quebra-se-me a sensibilidade, o olhar atento. Quebra-se-me a disponibilidade para lhes dar tempo, para as sentir, para as deixar escorregar-me pelos dedos – que o processo antes automático agora precisa de tempo para ocorrer. Quebram-se-me as palavras a meio do caminho porque não as agarro logo – e elas agora são frágeis para se segurarem sozinhas.
Às vezes acho que um dia terei de escolher. Escolher entre a vida feliz e as palavras a escorregarem-me com facilidade das pontas dos dedos. Escolher entre a vida e as palavras – sabendo que sem elas me sinto sempre um pouco sozinha. Porque sem elas eu não sou mais a mesma – e gostava mais da outra que as tinha.
*Texto publicado no blog A Vida em Posts, no Brasil, a 30 de dezembro de 2013

sábado, 28 de dezembro de 2013

28 de dezembro de 2013

Não imaginava que o ano acabaria assim. Quando o iniciei não fazia ideia.
Entrei apaixonada. Apaixonada e a escrever muito. Apaixonada pela vida, pelo trabalho, pela família, pelos amigos. Por ele. E pelas palavras, mais do que nunca.
Entrei com vontade de fazer diferente: ter menos medos - ou os mesmos mas pouco lhes ligar - mais coragem, mais ação. Mais palavras. Entrei com tudo - e não imaginava que o ano acabaria assim.
Levantei voo três vezes - literalmente falando, que de outra forma seriam muitas mais. Levantei voo e pousei com o coração a sair-me pela boca. Acreditei que alguns voos me mudariam a vida, me mudariam as relações e as crenças. Por alguns dos destinos quis efetivamente mudar a vida - arriscar tudo, mudar-me com tudo, deitar tudo a perder. Precisava de um empurrão que não veio. Depois quis mudar-me sozinha. Mudar-me com tudo e sem pedidos alheios. Quis fugir-me. Não fui. Nos dias menos bons talvez queira ir ainda, com uma mala muito grande em que me possa enfiar.
Continuei a vê-los crescer e a ajudá-los a fazê-lo. Continuei a zangar-me muito e a derreter-me um pouco mais. E continuei - continuo - a questionar por que o faço, até quando o farei - e o que virá depois.
No ano em que mais escrevi, atravessei o oceano com palavras, publiquei mais do que em qualquer outro ano e temi (temo) como nunca deixar de o conseguir fazer. Fi-lo sempre por entre incertezas, medos, deceções, ânsias - e receio que as palavras não encontrem um outro caminho. 
Percebo hoje que alguns processos nunca terão fim. Mas aprendi a proteger-me mais, a dar um bocadinho menos. Aprendi a proteger-me de mim - e às vezes é mesmo preciso fazê-lo. Aprendi a olhar menos para trás, a não mexer em gavetas antigas.
Rodeei-me mais dos meus - dos de sempre. Este foi o ano em que quase fui testemunha. Este foi o ano em que nasceram mais bebés. Este foi o ano em que mais pessoas deixaram o país. Este foi o ano em que todos continuámos a crescer - em número, em tamanho, em opções. Este foi o ano em que continuei a ter orgulho nos meus - um orgulho agora maior.
Tem piada. Saio quase como entrei. Depois de tantas voltas, saio quase como entrei. Foi por isso que me apaixonei por ti - por todas as surpresas em que me fazes tropeçar. 
E eu não imaginava que o ano acabaria assim. Quando o iniciei não fazia ideia.

23 de dezembro de 2013

Logo sei quem vem*
Há dias em que me sento no passeio, e me deixo ficar a observar-te de longe. E tu apareces sempre, um bocadinho mais tarde ou mais cedo, mas nunca falhas. Mãos nos bolsos. Olhar meio perdido. Um ar alheado que me faz encontrar-te no meio da multidão. Encostas-te ao muro e espreitas lá para baixo. E logo sei quem vem. O teu sorriso que se estampa no rosto mal ela sai das escadas, com o olhar poisado no chão, não deixa grande margem para dúvidas. E eu levanto um pouco o jornal, tentando não chamar as atenções. Cumprimentam-se com dois beijos bem repenicados (quase que os consigo ouvir daqui) e depois ficam parados. Mas tu moves-te, consigo ver-te a mexeres-te freneticamente. E ficam parados, a olhar para cima e para baixo. Depois sobem, ou descem. Mas a tua expressão é sempre a mesma. Sempre o mesmo sorriso que tens para ela, especificamente. Estás parado ao lado dela. Mas consigo ver-te a descolares-te de ti próprio, a roçares os lábios no pescoço dela, a cheirá-la, a apoderares-te rapidamente, suavemente. Mas estás parado, a olhar para ela, com um brilhozinho nos olhos.
Nos outros dias apareces calmo, como quem nada espera. Encostas-te de costas para o muro, e deixas que ela – a outra – suba as escadas, de olhar radiante. E depois o que acontece é mais ou menos o mesmo. Só não a queres devorar. Não todos os dias. Não sempre. Mas há dias. Há dias, e apenas alguns, em que queres senti-la, queres saber que ela é tua como sempre foi, queres cheirá-la, e beijá-la. Mas só de vez em quando. Só nos dias em que sentes que é disso que precisas. Só nos dias em que sentes que ela te pode dar tudo o que queres, sem nada pedires.
E depois espanto-me com a minha capacidade de análise. É tão fácil ver que andas confuso. Tão, mas tão, fácil. E há dias em que me olhas e aí eu não hesito: levanto os olhos para te olhar directamente, usando o mais frio dos meus olhares.
*Texto publicado no blog A Vida em Posts, no Brasil, a 23 de dezembro de 2013

16 de dezembro de 2013

Porquê(s)*
E, de repente, faz-se luz. Faz-se luz aí dentro quando menos esperas.
É aquela vontade súbita que vai crescendo, a vontade súbita de um cigarro, de inspirar com força o seu fumo.
Tens passado dias, meses até, a tentar juntar as peças do puzzle. Colocas aqui, retiras dali, olhas de perto e mais ao longe, mas as linhas, as cores de diferenças ténues, parecem esbater-se mais com o tempo e então as peças, que colocas aqui e retiras dali, continuam a passar-te pelas mãos num ciclo sem fim. Mas, de repente, fez-se luz.
E enquanto, com as mãos trémulas, procuras agarrar o isqueiro, com a respiração prestes a fugir ao teu controlo, há um
Porque não eu?
a explodir-te no peito, a sair-te pela boca, a elevar-se no ar. Deixaste-o sair sem querer. Permitiste-te senti-lo com vergonha quando tudo o que querias era partilhar a felicidade alheia. Mas o
Porque não eu?
que deixaste escapar foi sentido. Sentido agora e sentido antes. Sentido antes e agora retomado. Perguntas-te
- Porque não eu?
 e perguntas também
- Porque não comigo?
e depois, invariavelmente, deixas que o teu corpo escorregue em direção ao chão, com as costas a arrastarem-se pela parede e um braço a abraçar os joelhos já lá em baixo, enquanto que o outro, segurando o cigarro, procura segurar também as lágrimas antes que estas te molhem o rosto.
- Porque não comigo?
E zangas-te. Zangas-te a sério. Zangas-te com os outros mas zangas-te especialmente contigo. Tu que quiseste mudar a vida. Tu que, cheia de medo, colocaste (quase) tudo no prego.
E queres gritar-lhe. Queres gritar-lhe bem para que te oiça – assim, com os ouvidos e com todos os outros sentidos. Queres que perceba pela tua linguagem corporal, queres que lhe doa no peito o que antes – e agora – tanto te doeu a ti. De repente, isso é tudo o que queres. Magoá-lo um bocadinho, magoá-lo muito. Torcer-lhe o coração no peito ao ponto de quase o arrancares – como se assim o arrancasses da vida que agora tem e de que não fazes parte. Queres gritar-lhe:
Porque não comigo?
Mas tudo o que consegues dizer, ainda que baixinho, é que foi por ti. Foi por ti que não. Foi o teu medo e as constantes questões que gerou e que lhe colocaste – uma após a outra. Foi pela tua ansiedade. Foi pelo teu amor. Foi por todo o teu amor que ele não te amou. Tu, que deste tudo – e mais um bocadinho (grande). Foi por ti que ele não te pôde amar por inteiro.
E assim te cresce mais a dor no peito. E a vontade que antes tinhas não existe mais. Agora queres endireitar o coração no peito com cuidado, compondo-o e colocando-lhe até um lacinho. Queres dar festinhas ao coração alheio. Queres cuidá-lo tanto – mais uma vez. E assim o teu se torce mais um bocadinho sob o peso de mais uma falha que sempre entendes como tua. Quando a única questão que deverias colocar seria:
- Porquê tu?
ou
- Porquê contigo?
*Texto publicado no blog A Vida em Posts, no Brasil, a 16 de dezembro de 2013

9 de dezembro de 2013

Zanga de menina*
O trabalho por fazer pesa-te nos ombros. Não o fazes mas também não o esqueces. Não o esqueces quando ao sábado de manhã te deixas ficar afundada em lençóis, com os teus pés a passearem-se devagarinho pelos pés alheios, ou quando trocas palavras com um brilhante sol de inverno a brilhar sobre o mar à tua frente ou ainda quando te vês rodeada pela família (ou amigos). Não o esqueces mas também não o fazes.
Por vezes sentas-te à secretária. Sentas-te mesmo com o objetivo de despachar trabalho. É desta, desta faço tudo. Mas o teu cérebro parece não querer colaborar e tu não o queres forçar. E então divagas. Procuras manter-te atualizada socialmente, vendo atualizações de estado, vendo rostos que há muito não vês de perto. Por vezes visitas álbuns inteiros, de foto em foto. E é aí que a nostalgia quase sempre te apanha.
É a nostalgia do que foi. A nostalgia do que continua a existir para além de ti. As amizades que o tempo, a vida, os acontecimentos – tudo junto ou nada disto, tu não sabes ainda dizer – te levou. E sentes uma angustia a crescer-te no peito.
Zangas-te por não teres antecipado perdas, por não teres tido precaução em situações que tu previas que te fossem estragar relações, afastando-te de pessoas que sempre estiveram perto. Zangas-te com o trabalho – todo o trabalho – que te afasta do que é importante, com todas as vezes em que disseste
- Não posso, tenho de trabalhar
mesmo sabendo que depois darias por ti a nada fazer, a procrastinar no sofá, na cama, no computador – em todo o lado – para não teres de o fazer.
Zangas-te por teres crescido, por estares a crescer, por seres responsável – e por teres, indubitavelmente, de o ser. Zangas-te com a vida de pessoa crescida que te roubou tempo para os amigos, para os livros, para os moleskines, para as tardes na relva da Gulbenkian, para os pés na areia quente, para a brisa fria do rio aos teus pés.
Zangas-te, e zangas-te mais um bocadinho, por nem isto poderes fazer. Não há tempo. E há um peso maior a acumular-se nos teus ombros por todo o trabalho que se continua a acumular.
(E é por isso que agora fecho o moleskine e o atiro para o lado com força: para trabalhar).
                                                   *Texto publicado no blog A Vida em Posts, a 9 de dezembro de 2013

domingo, 8 de dezembro de 2013

2 de dezembro de 2013

Tu Conheces o Sabor*
E ela escorre pelo ralo. Não é a água, são pedaços dela que se vão à medida que a água escorre. Percorrendo-lhe cada pedacinho da pele, tocando os cantinhos escondidos de um corpo mirrado, descendo silenciosamente em direção ao fundo. Água quente que se deixa escorrer deliciosamente de cima para baixo, hesitando em casa curva, em cada elevação intermitente do seu peito. Como que treme, hesitante, e por fim desliza, em frente, ou desviando-se ligeiramente, à procura de um caminho mais fácil. E depois desce profundamente, entrando por buraquinhos com saídas profundas, escorregando em direção a um profundo desconhecido. E afunda-se. Afundam-se as duas. Como que entrelaçadas, como que juntas num pacto de sobrevivência, como que tecidos não resistentes à água. E as gotas passam, escorregam de um cabelo molhado, percorrem-lhe silenciosa e deliciosamente as costas. Devagarinho. Como devagarinho deve ser. Como num jogo de prazer e dor. Como dois dedos de uma mão conhecida que se deixam ir devagarinho num sobe e desce desligado. Suavemente. Ao de leve. Brincando. Desenhando círculos, espirais e palavras que se esquecem de ler. Como uma língua. Sabes. Devagarinho. Húmida. Deliciosamente áspera. Que vagueia à deriva. Como uns lábios esquecidos de encontro a uma pele molhada. A água. Vai descendo. Devagarinho. Em direção ao chão. Como a roupa escorrega pelos nossos corpos. Como cai o vestido à noite. Como escorregam as calças. Como saem peças de roupa inúteis. Como as despimos sem precisarmos delas. A água vai descendo devagarinho em direção ao chão. Devagarinho. Ao chão. Ao fundo. Pedaços dela. A sua pele molhada. As gotas que descem devagarinho pelas costas. O cheiro que tu conheces. A água. A espuma. Umas gotas percorrendo um delicioso caminho até ao fundo. Ao chão. O ralo. A água que escorre. A pele molhada. O cheiro. A língua. Uns lábios.
Inspira…
Os lábios.
expira…inspira…
A língua.
expira…inspira…
Os dedos.
expira…inspira…
hum…expira…
Tu conheces o sabor. O cheiro. A textura. A pele.
Inspira…
…expira.
Ainda te lembras?
*Texto publicado no blog A Vida em Posts, a 2 de dezembro de 2013

25 de novembro de 2013

Reminiscência(s)*
Não fiques aí parado. O tempo não vai parar apenas porque tu paraste. Os ponteiros do relógio continuarão a passar pelos minutos, pelas horas, pelos dias. O seu tic-tac, tic-tac sempre a lembrar-te de que os sons que ouves, todos eles, não soam aos sapatos dela a baterem friamente nas pedras da calçada. Não mais. E à medida que os minutos e as horas – quase dias, quase meses – passam, as pétalas vão-se acumulando aos teus pés, caindo uma após a outra – como que dias. Os teus olhos, fixos no chão, nas pétalas, na queda, não procuram os rostos de quem passa. Se o fizessem, saberiam que os olhos que te fitam são muitas vezes os mesmos: os de quem, passando, quase para, quase quer parar e passar-te uma mão pelo ombro, dar-te um aconchego. Primeiro confiante, depois menos. O braço – o braço e o buquê de flores – vão descendendo à medida que o sonho se vai desfazendo. Aos teus pés a certeza de que se desfaz, um pedaço após o outro. Mais tarde hás de recuperar – ainda que parcialmente. Fá-lo-ás apenas quando o som dos seus passos ecoar, aproximando-se e depois afastando-se sem parar. Erguerás então em teu redor autênticas muralhas e as flores, essas, não mais sairão da loja. Existirão outras mulheres. Mulheres para te massajarem o ego, te aquecerem a cama e te aliviarem a tensão. Mulheres que não deixarás entrar na tua vida, pelas quais não esperarás em lado algum mas que, pelo contrário, quererás fazer esperar. O telefone, que antes não deixavas em parte alguma, em momento algum, passará a ser deixado ao abandono, tocando e tocando vezes sem conta. E depois, num qualquer dia de sol, quando te sentires tão bem que as pétalas parecerão até estar a voltar ao seu devido lugar, cruzar-te-ás com algo que te irá lembrar – como se algum dia tivesses chegado a esquecer. E aí todas as mulheres – as que te massajam o ego, te aquecem a cama e te aliviam a tensão – se tornarão insuficientes. O que tu querias era que ela, meses, dias, horas, minutos atrás tivesse ficado para te aliviar a tensão, te aquecer a cama e te massajar o ego. E disso não sei se irás recuperar.
*Texto publicado no blog A Vida em Posts, a 25 de novembro de 2013

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

16 de novembro de 2013

Espanto*
Ela continua a espantar-se com ele.
São os pequenos – e os grande – gestos, as palavras, e a naturalidade com que estas lhe saem, os mimos, os olhares, as conversas interessantes.
Ela continua a espantar-se com ele. Com ele e consigo mesma. Espanta-se ao encontrar-se a si mesma a pensar e a dizer em voz alta
- Tu és tão interessante
quando se percebe envolvida num qualquer tema de conversa, ou a ver-se a si própria a observá-lo em momentos do dia a dia, a segui-lo com os olhos e a dizer-lhe
- Não consigo tirar os olhos de ti
como se isso, que é tão bom, lhe afligisse um pouco o peito.
Espanta-se com tudo o que ele lhe dá. Todas as pequenas atenções. Todas as palavras. Todos os olhares.
Ela continua a espantar-se com ele e com o olhar que ele lhe dá. Um olhar que é querer – querer de tantas e tão variadas formas, todas elas tão completas. Ele continua a espantá-la de cada vez que a observa entre silêncios – assim como nas outras, em que a interrompe (a ela ou ao silêncio) “apenas” para lhe dizer
- Tu és tão bonita
ou
- Gosto tanto de ti.
E todos os olhares, todos os gestos, a surpreendem invariavelmente espantada. Espantada e feliz. Espantada também por estar feliz, por ele a fazer – tão – feliz.
E ela continua a espantar-se com ele. A espantar-se em cada uma das conversas em que se percebe saborosamente embrenhada nisto, em que se sente – e o sente – empenhada em que haja mais dias como este(s), em que, um de cada vez, estes se vão juntando num somatório de dias felizes.
Ela continua a espantar-se com ele – e a gostar.
* Texto publicado no blog A Vida em Posts, a 11 de novembro de 2013.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

11 de novembro de 2013

(Pel)os velhinhos deste país*
No meio das revoltas da adolescência alguns de nós gritámos aos nossos pais — ou a quem estivesse a ouvir — que não pedíramos para nascer. Pois bem, acredito que estes não tenham pedido para morrer — pelo menos não antes de perceberem que iriam viver assim. Há muitas histórias para contar sobre eles.
 Há os que nunca descontaram e que vão recebendo um subsidiozeco — aquele com que devem pagar a renda, as contas da casa, a alimentação e, chegando, também a farmácia.
Há os outros, que o fizeram, mas aos quais o que o Estado por eles guardou não chega para pagar as contas certas — quanto mais as outras, incertas, que insistem em surgir. Talvez antes, antes dos cortes, lhes fosse possível cobrir as despesas. Talvez antes, quando os filhos ainda não tinham voltado para casa, quando os netos não comiam sempre à sua mesa, quando os transportes, a comida e a farmácia eram mais baratos, talvez nessa altura a reforma lhes chegasse. Talvez antes de a renda lhes ser aumentada. Talvez agora se remedeiem, comendo um pouco menos, aproveitando mais a luz natural, acumulando facturas na mesinha do telefone. Talvez assim vão vivendo — ainda que eu não saiba se a isto se pode bem chamar viver. Talvez estes sejam os que têm tanta vergonha que não deixam que a sua miséria seja vista por olhos alheios.
Há os que pagam as contas, uma após a outra, mas aos quais o corpo vai faltando já. São os vizinhos que vamos vendo envelhecer — primeiro devagar, depois depressa — que vamos conhecendo mais debilitados, menos cuidados, menos alimentados; de cujas casas vai saindo já um cheiro a sujidade. São os vizinhos, ainda casais, que não conseguem já viver sozinhos. Não conseguem mas fazem-no, que o que recebem não chega para pagar um lar — e a Segurança Social pouco lhes consegue assegurar.
E depois há os outros. Cruzamo-nos com eles no metro, quando de olhos poisados no chão e mão estendida, passam por nós. Pode também ser num semáforo, quando devagarinho se aproximam do vidro — ainda que chova — ou em ruas da zona nobre da cidade. Alguns de nós sentirão como que um murro no estômago e ficarão imóveis, como que em choque, com os olhos a adquirirem um brilho quase molhado. Outros olhá-los-ão com pena — e com uma revolta maior do que a pena. Muitos pensarão nas estatísticas e questionar-se-ão sobre o que estamos a fazer pelos velhinhos deste país — este que é já o sexto mais envelhecido do mundo. Outros tantos ficarão a pensar que envelhecer aqui é doloroso a duplicar. Ou a triplicar. Ou por aí fora.
 * Crónica publicada no Público P3 a 12 de novembro de 2013

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

7 de novembro de 2013

Bebeu para esquecer*
Não sei há quanto tempo é que ela fez disto vida. Sei que às vezes, quando a meio do dia desço para fumar um cigarro e nos cruzamos no corredor, troco o sorriso da praxe e sigo caminho – com ela no pensamento.
Os anos que nos distanciam chegam-me ainda para a observar com outros olhos. E os meus olhos preferiam não ver a tristeza que traz nos seus. São olhos sem brilho de quem já não se deixa impressionar. São olhos de quem, talvez, julga já ter visto tudo o que de bom havia para ver.
Há anos fez nascer duas crianças. Crianças que cresceram, que deixaram o ninho e que deixaram já hoje nascer outras crianças.
Há anos arranjou um marido. Ainda antes das crianças, arranjou-lhes um pai. Mas o pai, depois de o ser, depois de o ser há já anos, decidiu arranjar outra mulher. Não uma coisa séria, assumida. Antes uma das outras. Parece que ele procurava a atenção que ela não lhe dava, o elogio que se perdera no tempo. Parece que ele afinal gostava de mensagens capazes de causarem apertos e dilatações, de se arrastarem pela corrente sanguínea. Parece que ele gostava de uma safadeza ou outra – mas fora de casa, que com a mulher de casa parecia mal.
Ela, com o sexto sentido que todas as mulheres têm, um dia leu demais. Então ela soube. Soube logo mal leu uma mensagem ou outra. Soube tanto e tão bem – mas logo quis esquecer.
A cabeça na almofada não tinha descanso. As imagens que as mensagens trouxeram até si sempre ali, sempre a recordarem-na de que o homem que aturara durante grande parte da sua vida – a ressonar, a queixar-se do trabalho, a ter problemas de dilatação, a não lhe causar um friozinho na barriga – era afinal um sacana de primeira.
Então ela bebeu. Bebeu uma vez. Bebeu mais duas ou três. Bebeu para esquecer. Bebeu até o suficiente para se esquecer do que bebia.
A seguir quis beber para olhar em volta sem focar. Quis seguir a vida sem prestar atenção. Quis olhar em redor sem distinguir os limites das coisas.
Mas como tudo na vida tem um limite – e como nem todos são bons – também o dela chegou. Ou esquecia a bebida ou esquecia o que a pagava. E é por isso que agora se arrasta aqui. Com o que pagava a bebida mas sem a poder comprar, a vê-la passear-se à sua frente e a querer afastá-la, a querer aproximá-la – como quer também fazer com o sacana do marido com que continua a partilhar a cama.
Arrasta-se pelo corredor entre a cor mais neutra que quase permite a sua camuflagem e outras, mais vibrantes, que a ajudam a perceber que ainda está viva e – quase – de boa saúde.
Os olhos, esses, não esquecem o que viram e o seu não brilho sempre ali para nos lembrarem do que sabem.
* Texto publicado no blog A Vida em Posts, a 11 de novembro de 2013.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

4 de novembro de 2013

Que seja diferente*
Para que desta vez seja diferente. É isso que te pede: que desta vez possa ser diferente.
Vezes houve em que só ela acreditou. Foi a única a fazê-lo, vezes e vezes sem conta. A partir antes do sinal de partida – e a fazê-lo sozinha. A dar tudo – e a receber tão pouco. A dizer o que lhe corria nas veias e a escutar como resposta silêncios cheios de significado(s).
Sabes que hoje faz diferente: procura não avançar antes do sinal de partida e, mesmo quando o faz, não quer ser a primeira a chegar à linha da meta; dá pela metade; diz (muito) menos do que há para dizer e procura não ler os silêncios cuja interpretação lhe pode falhar. As palavras dos outros assustam-na. Ergueu em seu redor autênticas barreiras protetoras – não para impedir incursões alheias, antes para prevenir a sua própria saída.
Sabes que as barreiras  – como as histórias do passado – lhe pesam em cada um dos seus passos. Ganhou medos. Procura proteger-se, por vezes em excesso, abraçando os joelhos e enrolando-se sobre si mesma. E ela precisa, precisa mesmo, que desta vez seja diferente. Mas ela nunca to diria e tu também sabes disso. Sabes que se zangou contigo faz tempo, quando tu lhe deste todos os motivos para que o fizesse. E, de todas as oportunidades que te deu, o que retirou foi a conclusão de que não as merecias mais.
Talvez a possas surpreender, agora que não o espera de ti, e deixares que desta vez possa ser diferente. Mostrar-lhe que vai ser diferente, que é diferente. Que, mesmo sem pedir por favor, desta vez lhe vais dar o que quer.
* Texto publicado no blog A Vida em Posts, a 4 de novembro de 2013.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

31 de outubro de 2013

Estás sentado à secretária há já várias horas. Contrariamente ao que acontece noutras alturas do dia, os teus olhos observam repetidamente o canto inferior direito do monitor onde os minutos, esses, se vão arrastando, um após o outro.
Já perdeste a conta às palavras. Um dia após o outro. Uma após a outra. São palavras que vão e que vêm, que te agitam, que a aproximam. E, no entanto, são palavras apenas. Não importa a atenção que dedicam a cada uma delas, nem mesmo a intenção com que cada uma é escrita. A verdade é que, com o passar dos dias, cada uma se vai revelando mais pequenina, de menor sentido, incapaz de reproduzir a real amplitude do que há a dizer.
Sentado à secretária, os teus olhos acabam por pousar no telefone ao teu lado. Sabes que se marcares os nove dígitos do seu número haverá apenas um "Privado" a fazer-se anunciar do outro lado. E, se fechares os olhos, talvez consigas mesmo imaginá-la a observar o ecrã e a questionar-se silenciosamente. Talvez ela não perceba - pelo menos não logo. Talvez o seu indicador direito hesite entre o atender e o ignorar.
A tua mão pousa sobre o auscultador, o teu indicador pressiona cada um dos nove algarismos e a tua respiração, essa, dispara. Queres pousar o telefone. Não queres pousar o telefone. Não sabes se queres ou não pousar o telefone. E enquanto as tuas ideias oscilam, enquanto procuras perceber o que queres ou não, a sua voz ouve-se do outro lado. Há um
- Estou
que não sabes dizer se soa a interrogação ou a exclamação. Talvez haja ali alguma exasperação. Há talvez a frieza que ela anunciara já. E há um silêncio de ambos os lados. O teu silêncio de quem não sabe o que está a fazer, nem o que esperava com isto. E há o silêncio dela do outro lado, breves segundos apenas durante os quais se encosta à ombreira da porta e as ideias lhe passam depressa. E quando a sua boca se abre para o segundo
- Estou
talvez ela já tenha percebido. Talvez tenha esperado até ouvir algo desse lado. Um silêncio que fosse em que pudesse respirar um pouco, em que o seu 
- Estou
pudesse soar a
- Estou (aqui)
e não apenas a um
- Estou.
Mas o que ela ouviu foi a chamada a desligar-se. Nem a chamada a ser desligada, apenas o pós chamada desligada, quando o sinal de chamada perdida se fez ouvir.
Ela soube. Soube (quase) desde o primeiro segundo silencioso. Soube até que depois de pousares o auscultador a tua mão não o conseguiu largar logo - como se assim te pudesses manter em contacto. Ela quis dizer-te que soube. Mas pensou depois que não seria necessário.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

25 de outubro de 2013

Paz.*

Estou em paz contigo.
Demorei a chegar aqui mas agora que aqui estou percebo o quanto me sabe bem.
Estou em paz contigo e com o que foi. Em paz com os sorrisos que não consegui ter, com os copos que não bebi, com os livros que não li. Em paz até com as lágrimas que devia ter chorado e não chorei. Estou em paz com as noites em branco de conversas sem fim - aquelas a que não raras vezes perdi o rumo pouco tempo após o seu início. Perdoei-te já por todas as vezes em que me tiraste da cama comigo já longe, já distante, para me arrastares para perto e me fazeres ouvir-te. Quero dizer-te que tentei. Tentei mesmo. Tentei ouvir-te com todos os meus ouvidos - mas, ainda assim, tudo o que se ouvia cá dentro eram queixumes de
- estou tão cansada
ou
- não sei que mais lhe posso dizer
ou
- já não sei do que falamos agora
ou ainda um
 - não aguento mais isto
que nunca fui capaz de te dizer em voz alta - mas que, hoje percebo, me corria pelas veias há já muito tempo.
Eu não aguentava. Por isso o meu corpo se desligou para ti - primeiro um dia, depois outro, uma semana e, podendo, mais até. Por isso o meu corpo se desligava demasiado cedo. Ele queria fechar-me dentro de si, queria isolar-me num sítio seguro. Queria proteger-me das agressões externas da vida que corria. E disso não te culpo a ti.
Não te culpo, não mais. Estávamos danificados, cada um à sua maneira. E danificámo-nos mais, danificámo-nos muito.
Estou em paz contigo agora que percebo isso. Espero que, um dia, a paz te chegue para que me entendas também.
Estou em paz contigo. Às vezes não estou ainda é em paz comigo e com a inércia que me dominou.
* Texto publicado no blog A Vida em Posts, a 28 de outubro de 2013.