quinta-feira, 31 de outubro de 2013

31 de outubro de 2013

Estás sentado à secretária há já várias horas. Contrariamente ao que acontece noutras alturas do dia, os teus olhos observam repetidamente o canto inferior direito do monitor onde os minutos, esses, se vão arrastando, um após o outro.
Já perdeste a conta às palavras. Um dia após o outro. Uma após a outra. São palavras que vão e que vêm, que te agitam, que a aproximam. E, no entanto, são palavras apenas. Não importa a atenção que dedicam a cada uma delas, nem mesmo a intenção com que cada uma é escrita. A verdade é que, com o passar dos dias, cada uma se vai revelando mais pequenina, de menor sentido, incapaz de reproduzir a real amplitude do que há a dizer.
Sentado à secretária, os teus olhos acabam por pousar no telefone ao teu lado. Sabes que se marcares os nove dígitos do seu número haverá apenas um "Privado" a fazer-se anunciar do outro lado. E, se fechares os olhos, talvez consigas mesmo imaginá-la a observar o ecrã e a questionar-se silenciosamente. Talvez ela não perceba - pelo menos não logo. Talvez o seu indicador direito hesite entre o atender e o ignorar.
A tua mão pousa sobre o auscultador, o teu indicador pressiona cada um dos nove algarismos e a tua respiração, essa, dispara. Queres pousar o telefone. Não queres pousar o telefone. Não sabes se queres ou não pousar o telefone. E enquanto as tuas ideias oscilam, enquanto procuras perceber o que queres ou não, a sua voz ouve-se do outro lado. Há um
- Estou
que não sabes dizer se soa a interrogação ou a exclamação. Talvez haja ali alguma exasperação. Há talvez a frieza que ela anunciara já. E há um silêncio de ambos os lados. O teu silêncio de quem não sabe o que está a fazer, nem o que esperava com isto. E há o silêncio dela do outro lado, breves segundos apenas durante os quais se encosta à ombreira da porta e as ideias lhe passam depressa. E quando a sua boca se abre para o segundo
- Estou
talvez ela já tenha percebido. Talvez tenha esperado até ouvir algo desse lado. Um silêncio que fosse em que pudesse respirar um pouco, em que o seu 
- Estou
pudesse soar a
- Estou (aqui)
e não apenas a um
- Estou.
Mas o que ela ouviu foi a chamada a desligar-se. Nem a chamada a ser desligada, apenas o pós chamada desligada, quando o sinal de chamada perdida se fez ouvir.
Ela soube. Soube (quase) desde o primeiro segundo silencioso. Soube até que depois de pousares o auscultador a tua mão não o conseguiu largar logo - como se assim te pudesses manter em contacto. Ela quis dizer-te que soube. Mas pensou depois que não seria necessário.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

25 de outubro de 2013

Paz.*

Estou em paz contigo.
Demorei a chegar aqui mas agora que aqui estou percebo o quanto me sabe bem.
Estou em paz contigo e com o que foi. Em paz com os sorrisos que não consegui ter, com os copos que não bebi, com os livros que não li. Em paz até com as lágrimas que devia ter chorado e não chorei. Estou em paz com as noites em branco de conversas sem fim - aquelas a que não raras vezes perdi o rumo pouco tempo após o seu início. Perdoei-te já por todas as vezes em que me tiraste da cama comigo já longe, já distante, para me arrastares para perto e me fazeres ouvir-te. Quero dizer-te que tentei. Tentei mesmo. Tentei ouvir-te com todos os meus ouvidos - mas, ainda assim, tudo o que se ouvia cá dentro eram queixumes de
- estou tão cansada
ou
- não sei que mais lhe posso dizer
ou
- já não sei do que falamos agora
ou ainda um
 - não aguento mais isto
que nunca fui capaz de te dizer em voz alta - mas que, hoje percebo, me corria pelas veias há já muito tempo.
Eu não aguentava. Por isso o meu corpo se desligou para ti - primeiro um dia, depois outro, uma semana e, podendo, mais até. Por isso o meu corpo se desligava demasiado cedo. Ele queria fechar-me dentro de si, queria isolar-me num sítio seguro. Queria proteger-me das agressões externas da vida que corria. E disso não te culpo a ti.
Não te culpo, não mais. Estávamos danificados, cada um à sua maneira. E danificámo-nos mais, danificámo-nos muito.
Estou em paz contigo agora que percebo isso. Espero que, um dia, a paz te chegue para que me entendas também.
Estou em paz contigo. Às vezes não estou ainda é em paz comigo e com a inércia que me dominou.
* Texto publicado no blog A Vida em Posts, a 28 de outubro de 2013.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

22 de outubro de 2013

Mais uma vez, o problema não és tu, sou eu.
Eu sei que esta frase soa a vazio, a frase feita. Perdi a conta às vezes em que a ouvi dirigida a mim, às vezes em que a ouvi no ecrã da televisão - muitas vezes associada a gargalhadas de fundo, como se de verdade nada pudesse ter. Mas tem. Pode ter.
O problema sou eu. O problema sou eu e o perímetro delimitado no chão em meu redor que ora está cheio (demais), ora está vazio (em demasia). Habituada que estou a ocupá-lo sozinha, as flutuações agitam-me a existência, desarrumam-me a casa. E, na minha casa, tudo tem de ter a sua ordem, sempre a mesma - que a sofrer mais vale que seja de enjoo.
O problema não é tu dares demais ou de menos. O problema é eu nem sempre saber se quero mais, se quero menos. O problema é eu gostar de dar - mais e mais - mas achar sempre que o deveria fazer menos. O problema é eu sentir as palavras a subirem-me à garganta mas empurrá-las para baixo engolindo em seco. 
O problema não és tu, sou eu e a minha constante procura pelo equilíbrio, pelo ponto exato a meio caminho entre o que é demais e o que é de menos. E talvez esse ponto não exista, talvez ele próprio ande à procura da localização exata e eu ande apenas atrás dele - para a frente, para trás. 
O problema sou eu. Sou eu a não querer colocar-me numa posição pouco segura, numa posição em que as inseguranças se me aproximem da pele, da ponta dos dedos, da boca, dos ouvidos. Sou eu a não querer sentir a falta e, sentindo, querer fugir.
O problema não és tu, sou eu. O problema é eu achar que devo fugir de tudo - menos de mim. O problema é eu antecipar os problemas - aqui, ali, em todo o lado. E, fugindo deles, fugir de ti.

17 de outubro de 2013

Família é mesmo assim*

Família é assim mesmo. Cada um com a sua. E ai de quem, de fora, fizer comentários. Se é para elogiar vamos a isso, se é para criticar escusa de vir. Família é assim mesmo e cada um com a sua.
Sentados à mesa montamos um arraial. Os braços apertados uns contra os outros, as cadeiras a empernarem com os bancos – e vice-versa – e as vozes – primeiro poucas, primeiro baixas – a subir, subir, até formarem um indistinto aglomerado de timbres. Por vezes, quando a cabeça está mais cansada, o aglomerado soa a um barulho constante e ininterrupto capaz de provocar um esgotamento. E, de repente, queremos abandonar o lugar à mesa ou levantar mais a voz – mais e mais – até que nos consigamos fazer ouvir para tão simplesmente pedirmos um pouco de silêncio.
A ralhar ou a rir. A comunicar. Cada família à sua maneira. Antes a ralhar que a calar, dia após dia. A ralhar vezes demais. A rir. A gritar. A espernear. Um bocadinho de cada. De extremos. A comunicar muito. A comunicar tudo. A não comunicar nada. A baixar a guarda e a perder o filtro.
Cada família com os seus hábitos – e estes, afinal mutantes, a serem alterados devagarinho e muitas vezes a contragosto de alguns. Primeiro tudo, depois um pouco menos – que família é um grupo mas cabe lá muita gente.
Família é assim mesmo. Nós não a escolhemos mas optamos dia após dia. Ficar. Dar. Receber. Ou não.
Há umas que dão demais, outras que dão de menos. Há os que nunca se satisfazem, os que não querem dar e há os outros: os que dão por inteiro, ainda que pouco ou nada recebendo.
Há famílias em que a dor de uns é a dor de todos, outras há em que a dor de um não dói a mais ninguém. Há os que vivem a felicidade alheia e os outros, que convivem mal com ela.
Família é assim mesmo e cada um com a sua. Umas vezes mais. Outras vezes menos. Nem sempre com muita vontade – ou à vontade. Mas cada um com a sua.
Não há melhores, não há piores (há, mas são raros os casos). Não há quem possa julgar – não de fora. Porque família é mesmo assim – ou devo dizer assins?
* Texto publicado no blog A Vida em Posts, a 21 de outubro de 2013

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

17 de outubro de 2013

Por vezes sentes-te destinada ao fracasso. Talvez pelo hábito de algumas coisas na tua vida fracassarem realmente - com frequência.
Habituas-te a este sobe  e desce - que sentes sempre não subir o suficiente para compensar a descida. Habituaste-te a que a uma subida, por mais pequena que seja, se segue sempre uma descida. Habituaste-te tanto que já a esperas. Mais: muitas vezes não só a esperas como até a antecipas.
Antecipas as descidas com pensamentos e atos de autossabotagem. Como se, sabotando-te a ti própria, não permitisses que a vida o fizesse por ti. Então és tu que o fazes por ela, esperando que assim te doa menos - que a surpresa também dói.
Encontras-te entre sorrisos. A vida corre calma, com o constante ir e vir das coisas que se querem assim. Dormes menos para viveres mais, para aproveitares melhor. E, de repente, de um momento - tão pequeno - para o outro - logo ali ao lado - quando os teus olhos se reabrem após um ligeiro pestanejar, apercebes-te de que o que tens é bom demais. Não sabes o que fazer. Não sabes o que dizer e, no entanto, a tua boca quer abrir e fechar-se sem parar, como se houvesse demasiado conteúdo acumulado no peito. Os teus olhos querem ver mais, acumular mais, mas o medo cresce em ti. Se estás a subir em breve estarás a descer. Se é para descer talvez te devas colocar já a caminho.
Na verdade, agora que aqui estás perdeste a certeza de querer ficar. Talvez não sejas capaz - o que se faz quando tudo corre bem? Talvez não mereças tudo isto - talvez as descidas sejam apenas a vida a lembrar-te que assim é. Ou talvez estejas apenas assustada - e por isso queiras fugir.
Fá-lo, se achares que deves, mas não o faças para sempre. Em alguma altura terás de perceber que a autossabotagem é que te leva ao fracasso.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

14 de outubro de 2013

Crescer. Um dia. Eu vou.*

Um dia vou crescer. Eu sei que tu me olharás sempre com os mesmos olhos e que verás em mim sempre esta menina. Mas quero dizer-te, quero prevenir-te para o facto de que, um dia, eu vou crescer e esta menina que ainda pede colo o vai deixar de pedir.
Passarão anos em que revirarei os olhos em todas as tuas conversas, em que verás mais vezes as minhas costas do que o meu rosto, em que a minha voz não será ouvida – ou será, mas alto de mais.
Quero dizer-te que o tempo para me dares mimo é agora – porque depois será tarde de mais. Agora é a altura de me passares a mão pelo cabelo, a altura de me chegares mais a ti. É agora que deves dizer o quanto te orgulhas de mim – dizer alto e bom som, dizer muitas vezes – porque depois será já demasiado tarde. Se tiveres oportunidade escreve. Escreve para que fique o registo, para que, se a minha memória me falhar enquanto cresço, exista a prova a recordar-me que em tempos te orgulhaste de mim. Hoje não me parece importante. Há sempre sorrisos em mim e ainda penso pouco se me apoias ou não, mas ao observar os que me rodeiam algo me leva a pensar que um dia a certeza de me saber apoiada poderá fazer a diferença.
Estou a alertar-te também para o facto de que vou fugir ao contacto físico. Quando quiseres caminhar lado a lado comigo e pousares-me a mão no ombro, lembra-te de que te alertei. Eu vou fugir, sacudir os ombros até que a tua mão caia. E, quase que aposto, quando crescer vou lamentar esses momentos. Mas acredito também que para crescer vou ter de sair de debaixo da tua asa, sair o suficiente para que as minhas cresçam.
Deixa-me dizer-te ainda que existirão sempre em mim caraterísticas desta menina. Mas quero pedir-te, também, que não chames a atenção sobre elas, que não as refiras. Aceito que as observes, que te sentes num qualquer canto a observares-me as maneiras e a forma, mas que o faças em silêncio e com um rosto inexpressivo. Conto contigo para me veres crescer. Conto contigo também para me veres ser sempre um pouco menina. Conto contigo para me dizeres, ainda que em silêncio, que os meus erros não foram suficientes para defraudar as expectativas.
Sim, um dia eu vou crescer. Vou crescer em altura, em largura, em profundidade. Mas os meus olhos continuarão sempre a ver o mundo com curiosidade, a absorve-lo, a ouvi-lo atentamente. E a minha boca continuará a estar perto do coração. E as minhas lágrimas, essas, continuarão sempre fáceis – porque estou triste, porque estou feliz. É que a vida, as pessoas, continuarão a tocar-me.
Lembra-te, eu vou crescer. Um dia. Talvez ainda não hoje. Talvez não amanhã. Um dia. Pouco a pouco. Um bocadinho de cada vez.
* Texto publicado no blog A Vida em Posts, a 14 de outubro de 2013

domingo, 13 de outubro de 2013

13 de outubro de 2013

Ela quer que penses que não vai voltar, que desta é que é. Quer fazer-te acreditar que já cá não está quem para sempre disse ficar.
A segurar as lágrimas com força e com o corpo a movimentar-te bruscamente, tira da vista tudo o que a pode lembrar. Memória atrás de memória agora colocadas para além da porta de um qualquer armário em que quase nunca mexe. Fia-se no ditado que cedo ouviu, na crença de que "longe da vista, longe do coração". Não se fia, mas quer fiar-se, porque há alturas em que crenças como esta parecem poder ajudar.
Fecha-se em silêncios que espera levar-te diretamente ao coração. À consciência. Espera que te perguntes porquê. Espera que o silêncio te rodeie como que um ruído constante, quase ensurdecedor.
Move-me pé ante pé, procurando não deixar rasto. Um pé, depois o outro, num movimento consciente e controlado, evitando rotas do antes, evitando memórias do que foi. Preenche os dias com novos movimentos, novos espaços, novos sons. Preenche-se, preenchendo o espaço em redor - mas procurando, sempre, que acredites que desta é de vez, que preenchidos todos os espaços nada sobrará para ti.
E talvez acredite que à noite, agora que os dias arrefeceram e os lençóis voltaram a ficar frios, te deites nessa cama para dois e o espaço que te rodeia seja grande demais. E que te decidas a interromper o silêncio, a encurtar a distância, a pedir-lhe que volte. E que ela seja crescida o suficiente para te dizer que desta é que foi - e que não vai voltar.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

9 de setembro de 2013

Para que os ses não te apanhem*

Se.
Se a vida não tivesse dado estas voltas. Ou se a vida as tivesse dado antes. Se tu tivesses percebido antes ou se tu simplesmente nunca te apercebesses. Se tivesses agido na altura. Se agisses agora. Se não agires nunca. Se não tivesses agido nunca. Se te tivesses declarado ou se não tivesses deixado sair o que trazias no peito.Se o medo te tivesse bloqueado ou se não te tivesses deixado paralisar pelo medo. Se não tivesses colocado a mão no fogo por ele. Se tivesses ariscado mais. Se. Se. Se.
Na correria do dia a dia não há tempo para ses. Na correria não há tempo para mas. Não há tempo para ter tempo. Ponto. Vais depressa, mais depressa, sem parar. 
Pausa. Pausas com olhos no passado. Pausas em que os pés se querem mexer em sentido inverso, em que queres andar para trás no tempo e optar por outros caminhos. Pausas em que querias que a tua vida fosse um livro (que é!) daqueles em que podes escolher diferentes finais - e em que, quando um não te agrada, podes simplesmente retomar a história a partir do ponto anterior sem que as personagens se tenham movimentado no tempo, no espaço.
Pausa. Pausas para leres as palavras de antes, para olhares os rostos para sempre guardados em fotografias. Pausas para olhares para dentro, para olhares para ti. 
Pausas em que te arrependes das opções que fizeste - e das outras, que não fizeste. Pausas em que, invariavelmente, choras o passado, lamentas o presente e temes o futuro. E te afundas em hipotéticas possibilidades.
Depois aceleras. Mais depressa. Vai depressa. Vai depressa que o tempo voa. Vai depressa para que os ses não te apanhem. Vai depressa para o que os teus olhos não os foquem. Para que os teus ouvidos não os ouçam. Vai depressa mas lembra-te de que se não fossem estes seriam outros. Ses haverá sempre. Não te deixes é vencer pelo arrependimento.
* Texto publicado no blog A Vida em Posts, a 11 de outubro de 2013

terça-feira, 8 de outubro de 2013

8 de outubro de 2013

Promete-me que vais ter cuidado. Com a saúde não se brinca. Por isso, promete-me que vais cuidar de ti.
Há quem viva com a constante sensação de "corda na garganta", sempre à espera do fim. Não à espera, com medo. E não com medo do fim: antes com medo de tudo o que há antes do fim. E há quem, como tu, finja não ver o que está bem à sua frente. O 80 e o 8, sempre tão distantes. Promete-me que vais encontrar o equilíbrio, que não vais andar de extremo em extremo, que vais estar atenta aos sinais e que, deparando-te com algum, não o vais ignorar.
Histórias destas há muitas. Toda a gente conhece alguém que as viveu. Toda a gente conhece uma ou várias pessoas que as protagonizaram e outras, que as viveram em papéis mais secundários. Eu sei que isso te assusta e que por isso finges não ver. Sei que perante histórias destas, mais ou menos próximas, pessoas em muito semelhantes adotam atitudes díspares. Mas, por favor, não as ignores. 
Não te quero sentada em salas de espera de paredes brancas de quinze em quinze dias, nem mesmo de mês a mês. Mas promete-me que ao menos os teus dedos te vão percorrer o corpo, pedacinho a pedacinho, procurando (não encontrar) sinais de preocupação. E, bem, lembra-te que as cadeiras das salas de espera existem para serem ocupadas, não apenas para preencherem o espaço vazio.
Nesse país onde vives os exames médicos, os exames complementares, foram muitas vezes realizados em excesso. Médicos houve que foram acusados de excesso de zelo. Agora, agora que os cofres estão (mais) vazios, alguns destes exames estão a ser racionados. Mas tu sempre foste boa a reclamar. Então reclama, exige o que é teu por direito. E se há sinais, então faz com que os explorem. Não permitas que as pistas sejam ignoradas por questões orçamentais.
Promete-me que vais ter cuidado. Mas promete-me que o teu cuidado não vai ser tido com dores de estômago e cigarros fumados um atrás do outro. Tem um cuidado preventivo. Um cuidado (quase) despreocupado. Promete-me que o teu cuidado vai ser rotineiro. E se tiveres de te sentar em salas de espera de paredes brancas, daquelas que trazem ao presente os fantasmas do passado, fá-lo a recordar todas as histórias de final feliz. Não o faças a lamentar a minha.
Do que tenho observado, é o cuidado que marca muitas vezes a diferença. Por isso vive num 36, que do 8 e do 80 não reza a história. E lembra-te também de que as grandes batalhas só são travadas por grandes soldados. Não te esqueças do quão combativa consegues ser.

domingo, 6 de outubro de 2013

5 de outubro de 2013

Tinha um gato preto de olho em mim.
Todo este tempo, tinha um gato preto de olho em mim. E eu olhava-o com receio, não deixando nunca que o meu olhar se cruzasse com o seu.  
Vivia com medo. "Gato preto é azar", sempre se disse. Eu ia para aqui, ia para acolá, e o gato preto sempre comigo, olhando-me seriamente do topo do seu corpo esguio.
Não sorria - porque o gato estava a ver. Não bebia: o gato estava a ver. O meu corpo movia-se mas sempre (sempre) contraído. Não queria afugentar o gato. Se gato preto só por si é azar, o que seria um gato preto afugentado? Quem sabe se não se tentaria vingar?
Olhava o gato e não percebia o que queria de mim - logo de mim, que nem gosto (muito) de gatos.
À força de o ter sempre comigo - foram dias, tantos que se transformaram em anos - fui ganhando confiança. "Gato preto é azar" mas azares não os houve. Houve a vida, ela própria, e dela nunca ninguém disse só maravilhas. E o gato preto, de olho em mim, não parecia querer agir. Então o medo foi dando lugar à confiança, e à medida que os dias e os anos passavam, a sua presença foi sendo menos notada. Um dia olhei-o nos olhos. Olhei-o nos olhos e estiquei-lhe a mão. E então o gato preto (que "é azar") veio andando, roçando-se ao de leve nas minhas pernas esticadas, cabeceando-me a mão que eu pousara já no colo.
Tinha um gato preto de olho em mim todo este tempo que procurava só um pouco de atenção.

* Texto escrito para o "Escreva um post sobre", desafio semanal do blog A Vida em Posts

sábado, 5 de outubro de 2013

4 de outubro de 2013

Há algo na forma como ela caminha a seu lado que mostra o quão diferente é a sua perspetiva sobre o que têm.
Vai à frente, abrindo caminho, abrandando o passo apenas para se dirigir a ele mas não - nunca - para o ouvir. Os seus braços, esticados ao longo do corpo, acompanham-na sem parecerem precisar de companhia. Não importa se ele apressa o passo, se os braços dele se movimentam mais para a frente, mais para o lado, na tentativa de se aproximarem dos dela. Ela não parece interessada na proximidade.
Quando se aproximam da estrada, dos semáforos, ele coloca-se à esquerda, barrando-lhe a visão. E então ela, já com um pé na estrada, acaba por recuar. Ele procura protegê-la. Ela, tão autónoma, acaba por ceder. Ele levanta a mão em direção ao seu ombro, procurando abraçá-la com um braço só. E ao observá-la daqui, um pouco ao longe, quase consigo vê-la a fincar os pés no chão com mais força, pedindo-lhes ajuda para manter o corpo firmemente longe do dele.
Ele sorri, os olhos dele, sorriem, e a sua mão procura colocar no lugar os caracóis que o vento do final do dia insistentemente agita no ar. Ela sorri ao de leve e talvez o seu rosto acabe por se acomodar de encontro à mão quente dele. Talvez o corpo dela esteja a tentar aproximar-se do dele afinal de contas. Mas talvez o objeto com rodas que ele vem arrastando rua fora a esteja a impedir.
E de repente percebo. Percebo porque é que ela insiste em caminhar mais à frente, porque é que ela - e os braços dela - não procuram a proximidade, antes fugindo. Há um perímetro traçado no chão em seu redor. Não importa para onde vá: ali ninguém entra, dali ninguém devia sair. Ele saiu. Ela fechou o seu espaço e habituou-se a ele. É constante. Vazio às vezes, mas constante.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

2 de outubro de 2013

Histórias de (des)encantar*

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O Amor
Era uma vez um menino chamado Francisco e uma menina chamada Josefina. Eles estavam apaixonados e eles não queriam dizer porque pensavam que o outro não gostava dela então a Josefina enviou uma carta ao Francisco mas o Francisco não via o correio, eram os pais dele e eles deitaram fora a carta e depois o Francisco foi deitar uma coisa ao lixo e viu a carta e depois eles casaram.

Talvez alguém te devesse dizer que o amor nem sempre flui assim tão bem.

De cada vez que abro os vossos cadernos e me deparo com textos assim há algo que se me aperta no peito. As vossas histórias de príncipes e princesas - e a forma como crêem nelas - lembram-me a menina que fui, a menina que acreditava.
Todas nós crescemos rodeadas de histórias assim: A Bela Adormecida, A Cinderela, A Branca de neve e outras, tantas outras, em que a donzela em apuros acaba salva por um príncipe cheio de encantos. Ele é o cavalheiro que a toma em seus braços e que com um simples beijo a resgata de uma qualquer situação difícil, seguindo-se o tão conhecido "e viveram felizes para sempre". Resultado: crescemos e vivemos à espera do príncipe, como se a vida não chegasse sequer a ser vida sem esse outro elemento.
Há sobre estas histórias muito a dizer e nem sei por onde começar. No essencial gostaria apenas de vos proteger da deceção que sempre surge aquando do confronto com a realidade.
Talvez não vos devêssemos alimentar a histórias de encantar. Não se vocês vão crescer à espera de serem protagonistas de uma tão bela assim, não se vocês vão crescer a ver em cada rapaz um príncipe - e a descobrirem, uma vez após a outra, que essa é uma espécie tão rara que poderão nunca a encontrar.
Depois, a fórmula "príncipe salva princesa" terá tantas vezes de ser invertida que é importante, muito importante, que não fiquem presas à primeira. De outra forma, correrão o risco de ver o príncipe a ser arrastado para as trevas ou a ser salvo por uma princesa mais perspicaz. Transmitam também àqueles com que se cruzarem de que não dependem de príncipe algum para que a vossa vida valha a pena - mas não o digam apenas: vivam em conformidade.
Sobre o final tantas vezes repetido do "viveram felizes para sempre", lembrem-se por favor de que a história só termina após a resolução do problema. Não sendo a vida uma narrativa de um evento só, é importante ter presente que esta só chegará ao fim quando se esgotarem todas as páginas em que é escrita. A um problema resolvido seguir-se-á sempre outro, na sua escala tão própria. O importante a reter aqui é que, ultrapassado um problema, poderão realmente ser felizes: até que um outro se atravesse no caminho para colocar à prova essa tão especial união. Se a história será de encantar isso ninguém saberá dizer. Se será para durar, quer queiramos quer não, também não o poderemos afirmar. Que seja antes enquanto valer a pena. Só e apenas: enquanto os sorrisos forem em número suficiente para que valha a pena.

Ao ler o teu texto gostava de me sentar contigo e de te alertar para a impossibilidade de muito do que escreveste. Queria dizer-te que os receios iniciais que referes tinham 50% de probabilidade de serem justificados - mas a verdade é que existia também a possibilidade de que o amor fosse correspondido e só uma menina destemida como a Josefina arriscaria. Talvez por isso tenha sido tão bem sucedida: só assim se explica que uma carta tenha resistido à sujidade do caixote do lixo, acabando por conduzir ao casamento dos dois.
Talvez sejas tu quem, afinal, tem uma lição a transmitir.
* Texto publicado no blog A Vida em Posts, a 3 de outubro de 2013

sábado, 28 de setembro de 2013

28 de setembro de 2013

Um dia acordas com a certeza de que já não fazes parte. Acordas com a certeza só possível pelo acumular dos dias em que te questionaste se ainda pertencias.
Abres os olhos, olhas o teto acima de ti, abres muito a boca como se te faltasse o ar, puxas mais para cima o edredão e apertas com força o peito à medida que as lágrimas te escorregam, não devagarinho, depressa, pelo rosto.
Durante anos e anos tu fizeste parte. Tu fizeste parte da melhor forma possível. Fizeste parte da única forma realmente completa. Fizeste parte sem as cobranças, sem as expectativas. Sem os medos. Fizeste parte sem data marcada, sem horas inconvenientes. 
Partilhaste a cumplicidade dos olhares cheios de significado, dos sorrisos contidos mas perfeitamente detetatos pelo olhar conhecedor de quem te observava. Enfrentaste a reprovação com que as tuas falas bruscas eram recebidas, mas enfrentaste-a sempre com a confiança de te saberes compreendida.
Mas o tempo passa. O tempo passa por ti todos os dias. Passa por ti e pelos teus. E à medida que o tempo passa, leva consigo pedaços que julgavas pertencerem-te. Pedaços a que julgavas pertencer - para sempre. Leva-os para sítios onde deixas de os ver. Ou leva-os para sítios a que tu sabes não pertencer. Não importa se a dada altura tu te quiseste desfazer da vida que levas para a reencontrares lá, mais ao longe, mais completa. Importa que não o fizeste, por saberes, já, que não pertencias. Não pertences.
Mas o tempo passa. O tempo continua a passar. E em cada um dos dias em que não estás presente sentes-te a ficar cada vez mais distante. E a certeza de que não fazes parte vai-se adensando, tornando-se mais clara - e mais pesada também. Pesa em cada uma das decisões que tens de tomar - até naquelas que não se podem bem classificar como tal. Sentes o peso quando te vês a hesitar, quando te vês a questionar se é apropriado dizer isto ou aquilo quando antes, antes da passagem do tempo, as palavras te saíam da boca antes ainda de pensares que as querias dizer. E quando preparas surpresas - porque, caramba, tu adoras surpreender! - questionas-te se será demais, se será mal interpretado. Porque, afinal, tu sabes que já não pertences e talvez tudo o que antes fazias tenha também deixado de pertencer.
Os silêncios lembram-te que o tempo passou por ti e pelos teus. O espaço vazio recorda-te que pertences apenas a ti própria - e que não há pedaços que te pertençam para sempre.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

11 de setembro de 2013

Soldadinhos de hoje em dia*

Passam-se os dias. Assim, um atrás do outro. Quantos dias em que mal vemos o sol.
Acordamos cedo, levantando-nos quase sem pensar da cama que (sentimos) mal tivemos tempo de aquecer.
A leitura de casa de banho passou a ser digital, quase sempre com um remetente e destinatário em que o @ tem lugar. Saímos da cama já a trabalhar, atualizando-nos com correspondência que, parecemos acreditar, fugirá se a demora na leitura e resposta for maior.
Tomamos um duche rápido em que a cantoria é substituída pela repetição quase exaustiva de algo como “tem de ser”, como “tenho de dar mais”, algo capaz de nos motivar, de nos ativar realmente.
Mordemos qualquer coisa a caminho do trabalho, enquanto que com uma mão nos agarramos, esquivando-nos ao contacto físico com o vizinho do lado. Às costas uma mochila pesada, como se ao levarmos connosco todos os dossiês e o computador portátil nos tornássemos pessoas mais produtivas. Uma mochila pesada a puxar mais para trás, mais para cima, a camisa e a gravata – e o nó desta a apertar mais o outro, o que não se vê.
Sentamo-nos em cubículos com cadeiras já adaptadas ao nosso sentar e ficamos durante horas. Fazemos o nosso trabalho e fazemos o outro, que daria lugar a mais dois ou três. Os olhos muitas vezes já vermelhos. Comemos em frente ao computador porque – dizem os estudos – isso contribui para aumentar a produtividade.
E depois, quando o sol já se tiver ido, sairemos porta fora dentro destes fatos inteiros, com as mochilas às costas e cruzar-nos-emos com tantos outros como nós, soldadinhos de hoje em dia. Os phones sempre nos ouvidos para nos mantermos isolados neste mundo que é só nosso e nos dedos sempre o telemovel – para cima, para baixo, agora um comment ou um like só para recordar que ainda temos amigos.
De vez em quando – só muito de vez em quando – talvez consigamos encontrrar um tempinho para nos encontrarmos todos, para nos sentarmos à volta de uma mesa de copo numa mão e telemovel quase sempre na outra, recordando os tempos passados e atualizando a vida social com os que não estão presentes – mas assim, tudo ao mesmo tempo, que se há coisa em que não somos bons é em estar por completo num sítio só.

Quando a família nos arrasta para um evento demorado talvez ganhemos então alguma coragem para nos expressarmos sobre a vida que levamos (ou que sentimos levar-nos a nós) e aí a resposta será certamente um “ao menos tens trabalho” que nos deixa sem resposta. Talvez queiramos abrir a boca e dizer que o está errado não é o facto de termos um trabalho de que nos podemos pontualmente queixar mas sim o facto de nem todos o poderem ter. Mas talvez não o digamos com receio de parecermos ingratos.

* Crónica publicada no Público P3 a 19 de setembro de 2013

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

16 de setembro de 2013

Há algo a passar-se aqui. Aqui, algures aqui dentro, não sei se mais abaixo, se mais acima. Aqui.
Há um nó maior em mim - em cima, em baixo, em qualquer parte - a toldar-me o raciocíonio, a bloquear-me as ideias. Há um nó a meio caminho entre o peito e as ideias lá em cima, um nó que me aperta as vias respiratórias, que me faz transbordar os olhos de aflição, que me faz mexer os pés e as mãos sem parar. Assim, depressa, sem sossego.
São os olhos pesados do sono das noites mal dormidas, as mãos pesadas de todas as ideias que não escrevi, os minutos a passarem e a pesarem-me na consciência - mais um em que não dormi, mais um em que não trabalhei. Os olhos a observarem o relógio fixamente - mais um, mais outro - e o corpo numa total inércia.
Há algo a passar-se aqui. Aqui, algures, em toda a parte, coisas a mais a passarem-se em simultâneo. São ideias acumuladas que agora tenho de separar mas em que me perco vezes e vezes sem conta. Não sei se hei de dizer que há uma falta maior de ti, se lhe devo dizer que há todo um conjunto de falhas a justificar quem sou, se devo tão simplesmente parar. Parar.

domingo, 1 de setembro de 2013

24 de agosto de 2013

Retrato (factual) do Vendedor de Praia*

No dia seguinte ele voltou.
Vi-o quando nadava de regresso à areia. Saí meio a correr, com medo de o deixar escapar. Aproximei-me e, sorrindo, pedi que me acompanhasse. O curioso é que se lembrava do que eu queria. Recordava-se ainda do modelo e da cor.
 Aproveitando a demora que o poisar de toda a carga sempre causa, ajoelhei-me junto a ele e antes que me apercebesse a minha boca já se abrira e começara a lançar-lhe questão atrás de questão. Bem, a verdade é que não foram precisas muitas. Rapidamente me mostrou gostar de conversar, alongando-se nas respostas, dizendo-me sempre mais do que eu perguntara. Pensando nisto uns dias depois, quase parecia que tivera acesso a um qualquer guião que eu pudesse trazer comigo mas que não tivera coragem de usar.
Quando a minha boca se abriu para lhe perguntar se poderia fazer-lhe uma questão sorriu-me com o rosto todo. Nos momentos de silêncio até à sua resposta questionei-me se esta comunicação seria possível ou se a barreira linguística se encontrava ali entre nós. Não, felizmente não estava. Num português que claramente não aprendeu cedo, soube que viera do Senegal.
— Há 17 anos! — disse, cheio de orgulho.
Chegou a Portugal em 1996 e não voltou a sair. Sempre fez isto de vender na praia, sempre com licença.
— No escudo era bom, vendia muito, com o euro é difícil… — desabafou, levando-me a acenar levemente com a cabeça, revendo mentalmente todas as pessoas que me têm dito o mesmo.
Esta praia é a sua praia. Sempre a mesma, há 17 anos. Sorrio agora ao pensar em quantas vezes nos teremos cruzado neste areal sem antes termos trocado uma única palavra.
Disse-me viver em Lisboa e eu quase respirei de alívio. Falou-me do autocarro que apanha de manhã e à tarde e do senhor do restaurante da praia, aquele, mais velhinho, que todos os dias lhe guarda os pertences, permitindo-lhe voltar a casa apenas com o que trás no corpo.
Tendo-lhe pago fiquei em silêncio, dando-lhe tempo para então recuperar o fôlego e para o ver, como no dia anterior, pegar na pequena toalha turca para enxugar o suor.
— Não está muito calor, é de andar sempre — justificou — em África é mais quente.
De repente levantou o braço e pôs-se a acenar, gritando numa língua que eu não compreendi. Acenava para o filho que, com pouco mais de 16 anos, o acompanha todos os dias nestas andanças. Todos os dias menos nos da escola.
Juntaram-se ali ao pé de nós mas o que disseram eu já não pude perceber. Falaram sempre numa outra língua, numa língua que o pai trouxe do Senegal e que aqui os une aos dois.

*Crónica publicada no Público P3 a 26 de agosto de 2013. 


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

23 de agosto de 2013

O passado não foi feito para tantas vezes o revisitares. Minha querida, o que já foi já foi e não voltará a ser. Mesmo que ao abrires documento após documento os teus olhos se encham de lágrimas e estas te escorreguem pelo rosto, sê forte. Sê forte o suficiente para as limpares com as costas das mãos, fechares os textos e a pasta e te recompores.
De que te vale pensares que desta vez vai ser diferente se depois, palavra atrás de palavra, o fim é sempre o mesmo?
Eu sei que o que tens nunca te chega mas tu deverias também saber - sempre - que o que tens hoje é melhor do que tinhas ontem. Mas também sei que esta é a altura em que te preparas para me responder
não é necessariamente melhor do que o que tinha anteontem.
Essa tua dificuldade em viveres com as ausências dificulta-te tanto a vida. Porque não te conformas, simplesmente? Porque é que tens sempre de encontrar um porquê - e não o conseguindo dás continuidade à tua procura?
Como na vida de toda a gente, as pessoas entram e saem quando assim tem de ser. Ou quando escolhem que assim seja. Mas depois, anos depois, tu revisitas o passado e queres tanto voltar lá, queres tanto voltar a tê-las contigo, que o peito se te contorce. E tu mereces melhor. Percebes isso? Mereces melhor do que essa busca incessante pelo passado que não volta(rá).
Provavelmente arrepender-te-ás sempre de, inocentemente, não teres visto tudo o que havia para ver. Vais cerrar os punhos e fechar os olhos com força querendo-te punir a ti mesma por teres interrompido o que tu mesma tanto querias. Mas sabes o que te vai custar mais? É que o tempo não vai voltar atrás e tu nunca te poderás punir o suficiente. E continuarás sem admitir em voz alta que na altura te tiveste de afastar para poderes seguir em frente com receio de que, não o fazendo, ficasses sempre para trás. E ao dizer-te isto vejo que o teu lábio se levanta à esquerda, que na tua bochecha a covinha se forma e os teus olhos me dizem
era exatamente lá que eu queria estar. Talvez hoje eu ainda lá estivesse se não tivesse tomado a decisão errada.
Mas agora é tempo de seguires em frente, porque os outros já o fizeram também. Não podes querer sentar-te à mesa para um café e puxares à conversa o passado que os outros há muito deixaram ficar. Ele está no exato sítio onde deve estar. Não lhe mexas mais. Não o revisites nunca mais.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

18 de agosto de 2013

 Retrato do(s) Vendedor(es) de Praia*

Percorrem a praia de lés-a-lés.
Caminham descalços sobre a areia quente com o sol como única companhia. Vão e vêm um sem número de vezes desde que o sol nasce e as suas caminhadas cessam apenas depois deste se ir.
Recebem-nos logo à chegada. Enquanto esticamos as toalhas na areia queixando-nos da falta de espaço, enquanto espalhamos o protector solar pela pele, eles vagueiam, caminhando de um lado ao outro da praia. E quando nos refrescamos, dizendo que a água está fria de mais, eles continuam a caminhar.
Ao ombro, sobre a roupa que nunca despem, levam o saco de viagem carregado. Pendurado neste, cabides e cabides de saias, vestidos e outras saídas de praia. No ombro que poderia estar livre levam malas que dizem ser de marca e nas mãos, sempre ocupadas, óculos espetados em caixas de esferovite, pulseiras enfiados em tubos de cartão. Lá mais em cima, sobre a cabeça, uma pilha de chapéus que assentam — caso existam — sobre os seus.
Caminham sozinhos e em silêncio, talvez contando os passos dados sobre os grãos quentes de areia. Anos e anos vividos mais a Sul, onde o sol queima a terra e a vegetação e onde os animais não se alimentam o suficiente para os alimentar. Anos e anos aqui, percorrendo a praia nos dias de Verão. Observo-os nas suas idas e vindas e questiono-me — sem sequer mexer a boca — de onde vêm e para onde irão depois, mais logo, quando nós nos aperaltarmos para horas e horas de copo na mão.
São às dezenas. Cruzam-se por vezes no caminho, cumprimentando-se com um breve acenar de cabeça. Não sei se terão algo mais em comum, se partilham laços ou origens, se partilham encostos noite dentro.
Quando lhes perguntamos o preço ajoelham-se na areia. Quando lhes dizemos que não vale a pena respondem-nos que assim se vê melhor. Aliviam os ombros espalhando todos os pertences em seu redor e enquanto observamos mais de perto o que têm para vender procuram recuperar o fôlego. Numa mão seguram os chapéus e, na outra, uma toalha turca pequena com que procuram secar o cabelo —já grisalho — a barba e o pescoço. Não comem. Não bebem.
Sem dinheiro na carteira pedimos que voltem amanhã. Amanhã estaremos cá, aqui, no mesmo sítio. Dizem que sim, que eles também estão cá: todos os dias. E enquanto se preparam para partir — voltando a colocar ao ombro o saco, as saídas de praia e o que mais houver — observo com atenção os rostos. As marcas da idade avançada. Os olhos. A barba grossa. A boca sempre aberta. Questiono-me — em silêncio, que em voz alta não sei como seria a reacção — o que comem para que as calças lhes estejam a escorregar pela cintura já a meio caminho do rabo, quando se hidratam, onde descansam quando se tornam invisíveis aos nossos olhos — se é que para alguns de nós alguma vez o deixam de ser.

*Crónica publicada no Público P3 a 20 de agosto de 2013. 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

13 de agosto de 2013

Ficamos a observá-lo em silêncio. Enterramos bem as mãos nos bolsos  e deixamo-nos ficar a observá-lo com os olhos rasos de lágrimas.
Observamo-lo por entre malas, por entre os filhos que o acompanham. Vemos carrinhos de bagagem que se se seguem uns aos outros, arrastando-se por entre balcões de check-in. Observamos a família que o acompanha apenas até ao controlo de segurança, que o fica a ver do outro lado das portas, que se ampara com mãos nos ombros e lágrimas que escorregam pela face.
Observamo-lo na sua aparente calma. Observamo-lo a abrir os passaportes de quem o acompanha, a depositar mala após mala no tapete. Observamo-lo a colocar naquele tapete os pertences de uma vida. Observamo-lo a despedir-se da mãe e a questionar-se - talvez o não vejamos, mas apenas imaginemos - se o abraço se poderá repetir no próximo ano. E os olhos - os nossos - enchem-se de lágrimas ao vê-lo partir.
Assim, nesta calma aparente, se deixa o país. Vive-se aqui quase toda uma vida. Veem-se nascer os filhos, vemo-los crescer e perder os dentes para de novo os ganhar. Vemo-los entrar e sair de salas de aula, avançar na escolaridade. E, um dia, vemo-los fazer as malas, ajudamo-los a fazer as malas, para se deixar o país.
Nós, que apenas o observamos, não sabemos o que pensa. Não sabemos o que guarda para si, o que esconde dos filhos, dos irmãos, da mãe. Vemo-lo deixar o país em silêncio, com o passo seguro de quem sabe que o deve fazer. 
Para efeitos estatísticos, este é apenas mais um que deixa o país. Mas quando os números são pessoas, o tratamento quantitativo dos dados não deveria chegar.
Nunca saberemos o que sente quem embala a vida. Nunca o poderemos saber até que sejamos nós a fazê-lo também. Um dia gostava de perguntar a um dos que deixa o país - um que não seja dos meus - o que sente ao fazê-lo. Porque ainda que não sabendo o que pensa quem vai, sei já um pouco do que sente quem fica. E os olhos rasos de lágrimas não são só tristeza. São muitas vezes de revolta perante a inércia do país, perante o à vontade com que abrimos as portas e convidamos os nossos a sair.
E se é certo que fora de portas damos sempre o melhor de nós, igual verdade é a de que, podendo, por cá faríamos o mesmo.

domingo, 28 de julho de 2013

27 de julho de 2013

Faz já um ano.  Ainda te lembras da sensação? 
Entraste pelo aeroporto adentro bem cedo, com o sol ainda  a levantar-se timidamente sobre a cidade. Arrastavas a teu lado a mala preta,  grande, que combinava com o que levavas nos pés. Primeiro, ainda com a mãe ao lado,  avançavas    com um passo hesitante e o olhar, meio perdido, cheio de questões.  Perguntavas-te, em silêncio,  porque marcaras a viagem, porque te preparavas para te aventurares sozinha numa cidade que não a tua. Depois, despachada a bagagem e tendo-te a ti própria como única companhia, os teus passos ganharam uma nova confiança e um sorriso nasceu-te no rosto, com a saborosa sensação de te sentires capaz. Prestes a enfrentares o desafio - que propuseras a ti própria - sentias-te incrivelmente capaz.
Os voos nunca te meteram medo.  Na realidade,  as descolagens - mais do que as aterragens - sempre te deram gozo. É a sensação de poder,  de superação,  como que se existisse ali alguma analogia entre a força dos motores e a tua própria.  E aquele som a dar-te a certeza de que estavas, realmente,  a iniciar a primeira viagem da tua vida: a primeira ao teu ritmo, ao teu gosto, a teu belo prazer.
Se à primeira (breve) visita quase te apaixonaste - sabes, houve aquela troca de olhares que te fez pensar e se.... mas que não durou o suficiente para que toda tu cedesses -  a verdade é que à segunda um êxtase se apoderou de ti. Os teus olhos brilhavam, o teu rosto estava constantemente iluminado por um sorriso e chegavam mesmo a existir borboletas na barriga.
Apaixonaste-te mais por aquela cidade a cada um dos passos das intermináveis caminhadas. Quilómetros e quilómetros que fizeste questão de percorrer a pé,  fugindo quase sempre ao insuportável calor das estações de metro. Caminhando com destino mas sem horários,  sem obrigações.  Cumprindo unicamente a tua vontade.  Demorando-te na relva ou no cais, lendo páginas sem fim, acompanhando-te a ti própria e escutando-te com atenção. 
Foi lá que conheceste a sensação de te emocionares perante o belo. Ali, em frente aos vitrais, em frente aos azulejos coloridos, em frente às construções e detalhes cheios de significados,  os teus pés ficaram imóveis e os teus olhos encheram-se de lágrimas. 
Esse foi o culminar de um trajeto. Depois de desceres, de te afundares, de perderes o rumo reencontraste-o em ti. Começaste devagarinho a reconstruir-te. Peça sobre peça,  uma após a outra, foste substituindo lágrimas por sorrisos, foste valorizando mais os ganhos e menos as perdas. E ao apaixonares-te por aquela cidade descobriste-te também apaixonada por ti.
Talvez tenhas querido ficar ali,  naquele sítio em que te bastaste realmente a ti própria,  em que foste tão capaz. Eventualmente, nos dias em que as certezas te faltam,  consegues ainda mobilizar tudo o que aprendeste, tudo de que foste capaz. E apaixonares-te mais, uma e outra vez.   

sexta-feira, 26 de julho de 2013

26 de julho de 2013

Eu posso ter a perceção, ligeira, de que mudei. Ao início, quando a mudança estava em cada um dos meus passos, na forma como assentava os pés no chão, eu sabia - sabia tão bem - que algo em mim estava a mudar. Não algo, muito de mim. Sabia que o meu foco principal mudara - de fora para dentro - que as lentes cinzentas haviam sido substituídas por outras mais brilhantes. Sabia.
Mas à medida que os passos, ainda que mudados, conquistam um ritmo constante a mudança é cada vez menos notada. E às vezes - talvez mesmo muitas vezes - coloca-se os pés no chão com uma zanga maior a crescer em nós, uma zanga maior pelo que somos hoje ser quase, quase igual ao que fomos ontem. É como se já não chegasse, como se precisássemos sempre de mais. Mais. Mais. Como se todos os anos de imobilidade tivessem agora de ser compensados por mudanças constantes, mesmo que bruscas. 
E então vive-se com o que se tem mas querendo sempre mais. Sempre. Hoje muito, amanhã um bocadinho - mas mais, sempre mais. 
Às vezes, quando a luz entra por aqui adentro, coloco os pés no chão um atrás do outro cheia de sorrisos. Quero o que tenho mais do que em qualquer outro momento. Quero ficar no exato ponto onde estou. Mas vezes há em que o que tenho me parece tão insignificante que ao olhar o espelho quero gritar comigo própria e mandar-me descer do pedestal. Quero gritar ao reflexo e dizer-lhe que não fez nada mais do que a sua obrigação - adiada por tanto tempo.
Habituamo-nos depressa às mudanças e quase nos esquecemos de onde vimos. E mesmo que digamos que queremos esquecer o passado talvez não o devessemos mesmo fazer. Quero mais. Quero mais mas preciso de olhar para trás para saber que estou a por os pés no chão de forma certa. Preciso de me olhar ao espelho e de saber que cada marca visível ao olho representa uma mudança - das outras, das que não se veem.
E é por isso que ao ouvi-lo de fora os meus olhos se querem fechar e a covinha se forma mais abaixo, com os braços a resistirem ao impulso de me rodearem para me lembrarem de que consegui.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

24 de julho de 2013

Durante anos, quando em pleno verão percorria os corredores dos verdes do supermecado, olhava-os assim meio de lado. Enquanto cheirava as mangas pousadas logo ali, procurando perceber se as deveria levar comigo ou não, os meus olhos estavam pousados neles. O rosa, a pele rija e enrugada, o formato redondo de pequena dimensão.
Em algumas das vezes, quando as mangas a nada cheiravam - e por isso as mãos permaneciam vazias - as pontas dos meus dedos tocavam-lhes ao de leve. Tocava-lhes ao de leve e logo a inspiração era mais longa, mais forte, reagindo à textura há tanto conhecida. Talvez os tenha querido levar comigo. Levá-los comigo para mais tarde os abrir, para mais tarde rasgar a pele e saborear o interior, o branco sumarento. Mas de cada vez que os meus dedos lhes tocavam ao de leve, de cada vez que tocavam a sua pele e a minha inspiração se alongava, os meus olhos humedeciam-se transbordando memórias.
A cada inspiração uma imagem. Os pratos brancos de rebordo verde e limão pintado, a mesa de pinho, as almofadas forradas. Ou as barras de azulejos cheias de frutos. E as mãos de unhas roídas estendendo-os na minha direção, o
comprei-os para ti!
a dizer-me que deveria comê-los.
Ontem pu-los no cesto. Enchi-me de coragem e pu-los no cesto. E depois do jantar coloquei-os no 
guardanapo verde à minha frente e decidi-me a abri-los, um de cada vez. Quando as minhas unhas lhes rasgaram a pele e o sumo frio me molhou os dedos talvez tenha até fechado os olhos. Arrancada toda a pele levei-os à boca e fiquei mais pequenina. De repente, fiquei novamente pequenina - pequenina numa casa também ela pequena. E deixei que a pele me ficasse nos dedos, pressionando-a entre o indicador e o polegar, para que o tato se juntasse ao paladar neste reavivar de memórias.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

22 de julho de 2013

Que outro sítio que não este? Se não fosse a crise, que outro sítio que não este?
Aqui, onde o sol é refletido pelos vidros das janelas, pelas pedras outrora brancas dos monumentos, pela calçada que é tão nossa. Que outro sítio que não este?
Desce a avenida mais cara, mãos nos bolsos, sorriso posto. Caminha com a leveza dos dias longos de verão, com a certeza de que haverá luz por várias horas. Ainda leva a mão à mala para pegar nos phones mas logo desiste da ideia. Quer ver e ouvir a cidade, absorvê-la com todos os sentidos. Os olhos levantam-se do chão e veem mais à frente: mais à frente nos rostos de quem passa, nos prédios cheios de história, no cimo das colinas. E ainda que o sol esteja forte, ainda que encadeie um pouco e os olhos se semicerrem enquadrados por pequenas rugas, puxa os óculos de sol para o alto da cabeça e observa tudo à luz da cidade. Esta luz que é dela. sem igual em parte alguma.
Pode subir e descer vezes sem conta. Percorrer durante horas a calçada. Mas quando se senta em frente ao rio, com as pernas a baloiçar sobre ele e o sol a descair já ligeiramente à sua direita, apoia as mãos atrás, estica os braços, fecha os olhos e sustem a respiração. Há um sorriso instalado que gostaria de passar a palavras. Mas quando abre o caderno preto de linhas finas sobre as pernas e pega na lapiseira amarela as palavras que ali vai deixando parecem não chegar para transmitir a grandiosidade do que este sítio gera em si.
Que outro sítio que não este? Se não fosse a crise, que outro sítio que não este? Ruas sem fim, dias longos. Línguas que se misturam por entre sorrisos longos e audíveis, por entre passos mais ou menos demorados. Colina acima, colina abaixo. Filas para os gelados, venda de fruta em cada esquina, música de rua. As bicicletas, os segways e, lá mais em baixo, quase, quase ao pé do rio, as rodas dos skates a rolarem sobre a pedra a recordarem-lhe tempos já quase antigos. E mais logo, sob a pedra da calçada, levantar-se-ão copos e copos sem fim.
Senta-se em frente ao rio e ao ver um navio que parte cheio de pessoas controla o impulso de lhes acenar, questionando-se sobre o que levam deste sítio. E questiona-se sobre o que levaram os de cá, sobre o que levaram deste sítio os que aqui pertencem, os que, se não fosse a crise, não quereriam outro sítio que não este.Mas sob a luz da cidade - sob a luz desta cidade - com as línguas a misturarem-se em seu redor, com o sol a aquecer-lhe a pele devagarinho, com os pés a baloiçarem sobre o rio e as rodas dos skates a ecoarem lá mais ao fundo, juntando-se ao som do rio que vai e que vem, talvez a crise possa deixar de existir por algum tempo. E assim sendo, que outro sítio que não este?